Verdade liberta

Minha foto
"Um Poeta sonhador Um amante do Amor Um negro questionador Um eterno lutador" "Poesia é arte de viver Ser poeta é também crer Na verdade na história Na ilusão Sem demora"

terça-feira, 30 de abril de 2013

BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC


Minhas senhoras, meus senhores:2
Muitas pessoas que se interessam pelo Espiritismo manifestam muitas vezes o
pesar de não possuírem senão muito imperfeito conhecimento da biografia de Allan
Kardec, e de não saberem onde encontrar, sobre aquele a quem chamamos Mestre,
as informações que desejariam conhecer. Pois é para honrar Allan Kardec e festejar
a sua memória que nos achamos hoje reunidos, e mesmo sentimento de veneração e
de reconhecimento faz vibrar todos os corações. Em respeito ao fundador da
filosofia espírita, permiti-me, no intuito de tentar corresponder a tão legítimo desejo,
que vos entretenha alguns momentos com esse Mestre amado, cujos trabalhos são
universalmente conhecidos e apreciados, e cuja vida íntima e laboriosa existência
são apenas conjeturadas.
Se fácil foi a todos os investigadores conscienciosos inteirarem-se do alto
valor e do grande alcance da obra de Allan Kardec pela leitura atenta das suas
produções, bem poucos puderam, pela ausência até hoje de elementos para isso,
penetrar na vida do homem íntimo e seguí-lo passo a passo no desempenho da sua
tarefa, tão grande, tão gloriosa e tão bem preenchida.
1 Seu verdadeiro nome é Hippolyte Léon Denizard Rivail, conforme estudo de autoria de Zêus Wantuil,
inserto em “Reformador” de abril de 1963, p.p. 95/6, intitulado “Kardec e seu nome civil”. Nota da FEB.
2 Conservamos no presente trabalho a forma de conferência que lhe deu Henri Sausse, lendo-a por ocasião
da solenidade com que os espíritas de Lião celebraram, a 31 de março de 1896, o 27° aniversário do decesso
de Allan Kardec. - Nota do Tradutor.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 2
Não somente a biografia de Allan Kardec é pouco conhecida, senão que ainda
está por ser escrita. A inveja e o ciúme semearam sobre ela os mais evidentes erros,
as mais grosseiras e as mais impudentes calúnias.
Vou, portanto, esforçar-me por mostrar-vos, com luz mais verdadeira, o
grande iniciador de quem nos desvanecemos de ser discípulos.
Todos sabeis que a nossa cidade se pode honrar, a justo título, de ter visto
nascer entre seus muros esse pensador tão arrojado quão metódico, esse filósofo
sábio, clarividente e profundo, esse trabalhador obstinado cujo labor sacudiu o
edifício religioso do Velho Mundo e preparou os novos fundamentos que deveriam
servir de base à evolução e à renovação da nossa sociedade caduca, impelindo-a para
um ideal mais são, mais elevado, para um adiantamento intelectual e moral seguros.
Foi, com efeito, em Lião, que, a 3 de outubro de 1804, nasceu de antiga
família lionesa, com o nome de Rivail, aquele que devia mais tarde ilustrar o nome
de Allan Kardec e conquistar para ele tantos títulos à nossa profunda simpatia, ao
nosso filial reconhecimento.
Eis aqui a esse respeito um documento positivo e oficial:
“Aos 12 do vindemiário3 do ano XIII, auto do nascimento de Denizard
Hippolyte-Léon Rivail, nascido ontem às 7 horas da noite, filho de Jean Baptiste-
Antoine Rivail, magistrado, juiz, e Jeanne Duhamel, sua esposa, residentes em Lião,
rua Sala n° 76.
“O sexo da criança foi reconhecido como masculino.
“Testemunhas maiores:
“Syriaque-Frédéric Dittmar, diretor do estabelecimento das águas minerais da
rua Sala, e Jean-François Targe, mesma rua Sala, à requisição do médico Pierre
Radamel, rua Saint-Dominique n° 78.
3 Veja-se “Reformador” de abril de 1947, pág, 85.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 3
“Feita a leitura, as testemunhas assinaram, assim como o Maire da região do
Sul.
“O presidente do Tribunal,
(assinado) : Mathiou.”
O futuro fundador do Espiritismo recebeu desde o berço um nome querido e
respeitado e todo um passado de virtudes, de honra, de probidade; grande número
dos seus antepassados se tinham distinguido na advocacia e na magistratura, por seu
talento, saber e escrupulosa probidade. Parecia que o jovem Rivail devia sonhar,
também ele, com os louros e as glórias da sua família. Assim, porém, não foi,
porque, desde o começo da sua juventude, ele se sentiu atraído para as ciências e
para a filosofia.
Rivail Denizard fez em Lião os seus primeiros estudos e completou em
seguida a sua bagagem escolar, em Yverdun (Suíça), com o célebre professor
Pestalozzi, de quem cedo se tornou um dos mais eminentes discípulos, colaborador
inteligente e dedicado. Aplicou-se, de todo o coração, à propaganda do sistema de
educação que exerceu tão grande influência sobre a reforma dos estudos na França e
na Alemanha. Muitíssimas vezes, quando Pestalozzi era chamado pelos governos,
um pouco de todos os lados, para fundar institutos semelhantes ao de Yverdun,
confiava a Denizard Rivail o encargo de o substituir na direção da sua escola. O
discípulo tornado mestre tinha, além de tudo, com os mais legítimos direitos, a
capacidade requerida para dar boa conta da tarefa que lhe era confiada. Era bacharel
em letras e em ciências e doutor em medicina, tendo feito todos os estudos médicos
e defendido brilhantemente sua tese.4 Lingüista insigne, conhecia a fundo e falava
corretamente o alemão, o inglês, o italiano e o espanhol; conhecia também o
holandês, e podia facilmente exprimir-se nesta língua.
4 Ver “Reformador” de março de 1958, pág. 67.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 4
Denizard Rivail era um alto e belo rapaz, de maneiras distintas, humor jovial
na intimidade, bom e obsequioso. Tendo-o a conscrição incluído para o serviço
militar, ele obteve isenção e, dois anos depois, veio fundar em Paris, à rua de Sèvres
n° 35, um estabelecimento semelhante ao de Yverdun. Para essa empresa se
associara a um dos seus tios, irmão de sua mãe, o qual era seu sócio capitalista.
No mundo das letras e do ensino, que freqüentava em Paris, Denizard Rivail
encontrou a senhorita Amélia Boudet, professora com diploma de 1ª classe.
Pequena, mas bem proporcionada, gentil e graciosa, rica por seus pais e filha única,
inteligente e viva, ela soube por seu sorriso e predicados fazer-se notar pelo Sr.
Rivail, em quem adivinhou, sob a franca e comunicativa alegria do homem amável, o
pensador sábio e profundo, que aliava grande dignidade à mais esmerada
urbanidade.
O registro civil nos informa que:
“Amélie Gabrielle Boudet, filha de Julien-Louis Boudet, proprietário e antigo
tabelião, e de Julie Louise Seigneat de Lacombe, nasceu em Thiais (Sena), aos 2 do
Frimário do ano IV (23 de novembro de 1795).”
A senhorita Amélia Boudet tinha, pois, mais nove anos que o Sr. Rivail, mas
na aparência dir-se-ia ter menos dez que ele, quando, em 6 de fevereiro de 1832, se
firmou em Paris o contrato de casamento de Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, diretor
do Instituto Técnico à rua de Sèvres (Método de Pestalozzi), filho de Jean-Baptiste
Antoine e senhora, Jeanne Duhamel, residentes em Château-du-Loir, com Amélie-
Gabrielle Boudet, filha de Julien Louis e senhora Julie Louise Seigneat de Lacombe,
residentes em Paris, 35 rua de Sèvres.
O sócio do Sr. Rivail tinha a paixão do jogo; arruinou o sobrinho, perdendo
grossas somas em Spa e em Aix-la-Chapelle. O Sr. Rivail requereu a liquidação do
Instituto, de cuja partilha couberam 45.000 francos a cada um deles. Essa soma foi
colocada pelo Sr. e Sra. Rival em casa de um dos seus amigos íntimos, negociante,
que fez maus negócios e cuja falência nada deixou aos credores.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 5
Longe de desanimar com esse duplo revés, o Sr. e Sra. Rivail lançaram-se
corajosamente ao trabalho. Ele encontrou e pôde encarregar-se da contabilidade de
três casas, que lhe produziam cerca de 7.000 francos por ano; e, terminado o seu dia,
esse trabalhador infatigável escrevia à noite, ao serão, gramáticas, aritméticas, livros
para estudos pedagógicos superiores; traduzia obras inglesas e alemãs e preparava
todos os cursos de Levy-Alvarès, freqüentados por discípulos de ambos os sexos do
faubourg Saint-Germain. Organizou também em sua casa, à rua de Sèvres, cursos
gratuitos de química, física, astronomia e anatomia comparada, de 1835 a 1840, e
que eram muito freqüentados.
Membro de várias sociedades sábias, notadamente da Academia Real d’Arras,
foi premiado, por concurso, em 1831, pela apresentação da sua notável memória:
Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época?
Dentre as suas numerosas obras convém citar, por ordem cronológica: Plano
apresentado para o melhoramento da instrução pública, em 1828; em 18295,
segundo o método de Pestalozzi, ele publicou, para uso das mães de família e dos
professores, o Curso prático e teórico de aritmética; em 1831 fez aparecer a
Gramática francesa clássica; em 1846 o Manual dos exames para obtenção dos
diplomas de capacidade, soluções racionais das questões e problemas de aritmética
e geometria; em 1848 foi publicado o Catecismo gramatical da língua francesa;
finalmente, em 1849, encontramos o Sr. Rivail professor no Liceu Polimático,
regendo as cadeiras de Fisiologia, Astronomia, Química e Física. Em uma obra
muito apreciada resume seus cursos, e depois publica: Ditados normais dos exames
na Municipalidade e na Sorbona; Ditados especiais sobre as dificuldades
ortográficas.
5 Houve engano dos biógrafos. Não foi em 1829, mas em 1824. Ver “Reformador” de 1952, págs. 77 e 79. -
Nota da FEB.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 6
Tendo sido essas diversas obras adotadas pela Universidade de França, e
vendendo-se abundantemente, pôde o Sr. Rivail conseguir, graças a elas e ao seu
assíduo trabalho, uma modesta abastança. Como se pode julgar por esta muito rápida
exposição, o Sr. Rivail estava admiravelmente preparado para a rude tarefa que ia ter
que desempenhar e fazer triunfar. Seu nome era conhecido e respeitado, seus
trabalhos justamente apreciados, muito antes que ele imortalizasse o nome de Allan
Kardec.
Prosseguindo em sua carreira pedagógica, o Sr. Rivail poderia viver feliz,
honrado e tranqüilo, estando a sua fortuna reconstruída pelo trabalho perseverante e
pelo brilhante êxito que lhe havia coroado os esforços; mas a sua missão o chamava
a uma tarefa mais onerosa, a uma obra maior, e, como teremos muitas vezes ocasião
de o evidenciar, ele sempre se mostrou à altura da missão gloriosa que lhe estava
reservada. Seus pendores, suas aspirações, tê-lo-iam impelido para o misticismo,
mas a educação, o juízo reto, a observação metódica, conservaram-no igualmente ao
abrigo dos entusiasmos desarrazoados e das negações não justificadas.
Foi em 1854 que o Sr. Rivail ouviu pela primeira vez falar nas mesas girantes,
a princípio do Sr. Fortier, magnetizador, com o qual mantinha relações, em razão
dos seus estudos sobre o Magnetismo. O Sr. Fortier lhe disse um dia: “Eis aqui uma
coisa que é bem mais extraordinária: não somente se faz girar uma mesa,
magnetizando-a, mas também se pode fazê-la falar. Interroga-se, e ela responde.”
- Isso, replicou o Sr. Rivail, é uma outra questão; eu acreditarei quando vir e
quando me tiverem provado que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para
sentir, e que se pode tornar sonâmbula. Até lá, permita-me que não veja nisso senão
uma fábula para provocar o sono.
Tal era a princípio o estado de espírito do Sr. Rivail, tal o encontraremos
muitas vezes, não negando coisa alguma por parti pris, mas pedindo provas e
querendo ver e observar para crer; tais nos devemos mostrar sempre no estudo tão
atraente das manifestações do Além.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 7
*
Até agora, não vos falei senão do Sr. Rivail, professor emérito, autor
pedagógico de renome. Nessa época, porém, da sua vida, de 1854 a 1856, um novo
horizonte se rasga para esse pensador profundo, para esse sagaz observador. Então o
nome de Rivail se obumbra, para ceder o lugar ao de Allan Kardec, que a fama
levará a todos os cantos do globo, que todos os ecos repetirão e que todos os nossos
corações idolatram.
Eis aqui como Allan Kardec nos revela as suas dúvidas, as suas hesitações e
também a sua primeira iniciação:
“Eu me encontrava, pois, no ciclo de um fato inexplicado, contrário, na
aparência, às leis da Natureza e que minha razão repelia. Nada tinha ainda visto nem
observado; as experiências feitas em presença de pessoas honradas e dignas de fé me
firmavam na possibilidade do efeito puramente material; mas a idéia, de uma mesa
falante, não me entrava ainda no cérebro.
“No ano seguinte - era no começo de 1855 - encontrei o Sr. Carlotti, um
amigo de há vinte e cinco anos, que discorreu acerca desses fenômenos durante mais
de uma hora, com o entusiasmo que ele punha em todas as idéias novas. O Sr.
Carlotti era corso de origem, de natureza ardente e enérgica; eu tinha sempre
distinguido nele as qualidades que caracterizavam uma grande e bela alma, mas
desconfiava da sua exaltação. Ele foi o primeiro a falar-me da intervenção dos
Espíritos, e contou-me tantas coisas surpreendentes que, longe de me convencerem,
aumentaram as minhas dúvidas. - Você um dia será dos nossos - disse-me ele. - Não
digo que não, respondi-lhe eu -; veremos isso mais tarde.
“Daí a algum tempo, pelo mês de maio de 1855, estive, em casa da sonâmbula
Sra. Roger, com o Sr. Fortier, seu magnetizador. Lá encontrei o Sr. Pâtier e a Sra.
Plainemaison, que me falaram desses fenômenos no mesmo sentido que o Sr.
Carlotti, mas noutro tom.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 8
O Sr. Pâtier era funcionário público, de certa idade, homem muito instruído,
de caráter grave, frio e calmo; sua linguagem pausada, isenta de todo entusiasmo,
produziu-me viva impressão, e, quando ele me convidou para assistir às experiências
que se realizavam em casa da Sra. Plainemaison, rua Grange-Batelière n° 18, aceitei
com solicitude. A entrevista foi marcada para a terça-feira6 de maio, às 8 horas da
noite.
“Foi aí, pela primeira vez, que testemunhei o fenômeno das mesas girantes,
que saltavam e corriam, e isso em condições tais que a dúvida não era possível.
“Aí vi também alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma
ardósia com o auxílio de uma cesta. Minhas idéias estavam longe de se haver
modificado, mas naquilo havia um fato que devia ter uma causa. Entrevi, sob essas
aparentes futilidades e a espécie de divertimento que com esses fenômenos se fazia,
alguma coisa de sério e como que a revelação de uma nova lei, que a mim mesmo
prometi aprofundar.
“A ocasião se me ofereceu e pude observar mais atentamente do que tinha
podido fazer. Em um dos serões da Sra. Plainemaison, fiz conhecimento com a
família Baudin, que morava então à rua Rochechouart. O Sr. Baudin fez-me
oferecimento no sentido de assistir às sessões hebdomadárias que se efetuavam em
sua casa, e às quais eu fui, desde esse momento, muito assíduo.
“Foi aí que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo, menos ainda
por efeito de revelações que por observação. Apliquei a essa nova ciência, como até
então o tinha feito, o método da experimentação; nunca formulei teorias
preconcebidas; observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências; dos
efeitos procurava remontar às causas pela dedução, pelo encadeamento lógico dos
fatos, não admitindo como válida uma explicação, senão quando ela podia resolver
todas as dificuldades da questão.
6 Esta data ficou em branco no manuscrito de Allan Kardec. - Nota do Autor.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 9
Foi assim que sempre procedi em meus trabalhos anteriores, desde a idade de
quinze a dezessete anos. Compreendi, desde o princípio, a gravidade da exploração
que ia empreender. Entrevi nesses fenômenos a chave do problema tão obscuro e tão
controvertido do passado e do futuro, a solução do que havia procurado toda a minha
vida; era, em uma palavra, uma completa revolução nas idéias e nas crenças; preciso,
portanto, se fazia agir com circunspeção e não levianamente, ser positivista e não
idealista, para me não deixar arrastar pelas ilusões.
“Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os Espíritos,
não sendo senão as almas dos homens, não tinham nem a soberana sabedoria, nem a
soberana ciência; que o seu saber era limitado ao grau do seu adiantamento, e que a
sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. Esta verdade,
reconhecida desde o começo, evitou-me o grave escolho de crer na sua infalibilidade
e preservou-me de formular teorias prematuras sobre a opinião de um só ou de
alguns.
“Só o fato da comunicação com os Espíritos, o que quer que eles pudessem
dizer, provava a existência de um mundo invisível ambiente; era já um ponto capital,
um imenso campo franqueado às nossas explorações, a chave de uma multidão de
fenômenos inexplicados. O segundo ponto, não menos importante, era conhecer o
estado desse mundo e seus costumes, se assim nos podemos exprimir. Cedo,
observei que cada Espírito, em razão de sua posição pessoal e de seus
conhecimentos, desvendava-me uma fase desse mundo, exatamente como se chega a
conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e
condições, podendo cada qual nos ensinar alguma coisa e nenhum deles podendo,
individualmente, ensinar-nos tudo. Cumpre ao observador formar o conjunto, com o
auxílio dos documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e
confrontados entre si. Eu, pois, agi com os Espíritos como teria feito com os
homens: eles foram, para mim, desde o menor até o mais elevado, meios de colher
informações e não reveladores predestinados.”
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 10
A estas informações, colhidas nas Obras Póstumas de Allan Kardec, convém
acrescentar que a princípio o Sr. Rivail, longe de ser um entusiasta dessas
manifestações e absorvido por outras preocupações, esteve a ponto de as abandonar,
o que talvez tivesse feito se não fossem as instantes solicitações dos Srs. Carlotti,
René Taillandier, membro da Academia das Ciências, Tiedeman-Manthèse, Sardou,
pai e filho, e Diddier, editor, que acompanhavam havia cinco anos o estudo desses
fenômenos e tinham reunido cinqüenta cadernos de comunicações diversas, que não
conseguiam pôr em ordem. Conhecendo as vastas e raras aptidões de síntese do Sr.
Rivail, esses senhores lhe enviaram os cadernos, pedindo-lhe que deles tomasse
conhecimento e os pusesse em termos -, os arranjasse. Este trabalho era árduo e
exigia muito tempo, em virtude das lacunas e obscuridades dessas comunicações; e o
sábio enciclopedista recusava-se a essa tarefa enfadonha e absorvente, em razão de
outros trabalhos.
Uma noite, seu Espírito protetor, Z., deu-lhe, por um médium, uma
comunicação toda pessoal, na qual lhe dizia, entre outras coisas, tê-lo conhecido em
uma precedente existência, quando, ao tempo dos Druidas, viviam juntos nas Gálias.
Ele se chamava, então, Allan Kardec, e, como a amizade que lhe havia votado só
fazia aumentar, prometia-lhe esse Espírito secundá-lo na tarefa muito importante a
que ele era chamado, e que facilmente levaria a termo.
O Sr. Rivail, pois, lançou-se à obra; tomou os cadernos, anotou-os com
cuidado. Após atenta leitura, suprimiu as repetições e pôs na respectiva ordem cada
ditado, cada relatório de sessão; assinalou as lacunas a preencher, as obscuridades a
aclarar, e preparou as perguntas necessárias para chegar a esse resultado.
“Até então, diz ele próprio, as sessões em casa do Sr. Baudin não tinham
nenhum fim determinado; propus-me, aí, fazer resolver os problemas que me
interessavam sob o ponto de vista da filosofia, da psicologia e da natureza do mundo
invisível.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 11
Comparecia a cada sessão com uma série de questões preparadas e
metodicamente dispostas: eram respondidas com precisão, profundeza e de modo
lógico. Desde esse momento as reuniões tiveram caráter muito diferente, e, entre os
assistentes, encontravam-se pessoas sérias que tomaram vivo interesse pelo trabalho.
Se me acontecia faltar, ficavam as sessões como que tolhidas, tendo as questões
fúteis perdido o atrativo para o maior número. A princípio eu não tinha vista senão a
minha própria instrução; mais tarde, quando vi que tudo aquilo formava um conjunto
e tomava as proporções de uma doutrina, tive o pensamento de o publicar, para
instrução de todos. Foram essas mesmas questões que, sucessivamente
desenvolvidas e completadas, fizeram a base de O Livro dos Espíritos.”
Em 1856, o Sr. Rivail freqüentou as reuniões espíritas que se realizavam à rua
Tiquetone, em casa do Sr. Roustan, com Mlle. Japhet, sonâmbula, que obtinha como
médium comunicações muito interessantes, com o auxílio da cesta aguçada7; fez
examinar por esse médium as comunicações obtidas e postas precedentemente em
ordem. Esse trabalho foi efetuado, a princípio, nas sessões ordinárias; mas a pedido
dos Espíritos, e para que fosse consagrado mais cuidado, mais atenção a esse exame,
foi continuado em sessões particulares.
“Não me contentei com essa verificação, diz ainda Allan Kardec, que os
Espíritos me haviam recomendado. Tendo-me as circunstâncias posto em relação
com outros médiuns, toda vez que se oferecia ocasião, eu a aproveitava para propor
algumas das questões que me pareciam mais melindrosas. Foi assim que mais de dez
médiuns prestaram seu concurso a esse trabalho. E foi da comparação e da fusão de
todas essas respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes refeitas no silêncio
da meditação, que formei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, a qual
apareceu em 18 de abril de 1857.”
7 Arranjada em forma de bico. - Nota do Tradutor.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 12
Esse livro era em formato grande, in-4, em duas colunas, uma para as
perguntas e outra, em frente, para as respostas. No momento de publicá-lo, o autor
ficou muito embaraçado em resolver como o assinaria, se com o seu nome -
Denizard-Hippolyte-Léon Rivail, ou com um pseudônimo. Sendo o seu nome muito
conhecido do mundo científico, em virtude dos seus trabalhos anteriores, e podendo
originar uma confusão, talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento, ele
adotou o alvitre de o assinar com o nome de Allan Kardec que, segundo lhe revelara
o guia, ele tivera ao tempo dos Druidas.
A obra alcançou tal êxito que a primeira edição foi logo esgotada. Allan
Kardec reeditou-a em 18588 sob a forma atual in-12, revista, correta e
consideravelmente aumentada.
No dia 25 de março de 1856 estava Allan Kardec em seu gabinete de
trabalho, em via de compulsar as comunicações e preparar o O Livro dos Espíritos,
quando ouviu ressoarem pancadas repetidas no tabique; procurou, sem descobrir, a
causa disso, e em seguida tornou a pôr mãos à obra. Sua mulher, entrando cerca das
dez horas, ouviu os mesmos ruídos; procuraram, mas sem resultado, de onde podiam
eles provir. Moravam, então, à rua dos Mártires n° 8, no segundo andar, ao fundo.
“No dia seguinte, sendo dia de sessões em casa do Sr. Baudim, escreve Allan
Kardec, contei o fato e pedi a explicação dele.
Pergunta: - Ouvistes o fato que acabo de narrar; podereis dizer-me a causa
dessas pancadas que se fizeram ouvir com tanta insistência?
Resposta: - Era o teu Espírito familiar.
P. - Com que fim, vinha ele bater assim?
R. - Queria comunicar-se contigo.
P. - Poderei dizer-me o que queria ele?
R. - Podes perguntar a ele mesmo, porque está aqui.
8 A 2ª edição foi impressa em 1860, e não 1858. - Nota da FEB.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 13
P. - Meu Espírito familiar, quem quer que sejais, agradeço-vos terdes vindo
visitar-me. Quereis ter a bondade de dizer-me quem sois?
R. - Para ti chamar-me-ei a Verdade, e todos os meses, durante um quarto de
hora, estarei aqui, à tua disposição.
P. - Ontem, quando batestes, enquanto eu trabalhava, tínheis alguma coisa de
particular a dizer-me?
R. - O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho que fazias; o que escrevias
me desagradava e eu queria fazer-te parar.
NOTA - O que eu escrevia era precisamente relativo aos estudos que fazia
sobre os Espíritos e suas manifestações.
P. - A vossa desaprovação versava sobre o capítulo que eu escrevia, ou sobre
o conjunto do trabalho?
R. - Sobre o capítulo de ontem: faço-te juiz dele. Torna a lê-lo esta noite;
reconhecer-lhe-ás os erros e os corrigirás.
P. - Eu mesmo não estava muito satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje.
Está melhor?
R. - Está melhor, mas não muito bom. Lê da terceira à trigésima linha e
reconhecerás um grave erro.
P. - Rasguei o que tinha feito ontem.
R. - Não importa. Essa inutilização não impede que subsista o erro. Relê e
verás.
P. - O nome de Verdade que tomais é uma alusão à verdade que procuro?
R. - Talvez, ou, pelo menos, é um guia que te há de auxiliar e proteger.
P. - Posso evocar-vos em minha casa?
R. - Sim, para que eu te assista pelo pensamento; mas, quanto a respostas
escritas em tua casa, não será tão cedo que as poderás obter.
P. - Podereis vir mais freqüentemente que todos os meses?
R. - Sim; mas não prometo senão uma vez por mês, até nova ordem.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 14
P. - Animastes alguma personagem conhecida na Terra?
R. - Disse-te que para ti eu era a Verdade, o que da tua parte devia importar
discrição; não saberás mais que isto.”
De volta a casa, Allan Kardec apressou-se a reler o que escrevera e pôde
verificar o grave erro que com efeito havia cometido. A dilação de um mês, fixada
para cada comunicação do Espírito Verdade, raramente foi observada. Ele se
manifestou freqüentemente a Allan Kardec, mas não em sua casa, onde durante
cerca de um ano não pôde este receber nenhuma comunicação por médium algum e,
cada vez que ele esperava obter alguma coisa, era obstado por uma causa qualquer e
imprevista, que a isso se vinha opor.
Foi a 30 de abril de 1856, em casa do Sr. Roustan, pela médium Mlle. Japhet,
que Allan Kardec recebeu a primeira revelação da missão que tinha a desempenhar.
Esse aviso, a princípio muito vago, foi precisado no dia 12 de junho de 1856, por
intermédio de Mlle. Aline C., médium. A 6 de maio de 1857, a Sra. Cardone, pela
inspeção das linhas da mão de Allan Kardec, confirmou as duas comunicações
precedentes, que ela ignorava. Finalmente, a 12 de abril de 1860, em casa do Sr.
Dehan, sendo intermediário o Sr. Croset, médium, essa missão foi novamente
confirmada em uma comunicação espontânea, obtida na ausência de Allan Kardec.
Assim, também, se deu a respeito do seu pseudônimo. Numerosas comunicações,
procedentes dos mais diversos pontos, vieram reafirmar e corroborar a
primeira comunicação obtida a esse respeito.
Urgido pelos acontecimentos e pelos documentos que tinha em seu poder,
Allan Kardec formara, em razão do êxito de O Livro dos Espíritos, o projeto de criar
um jornal espírita. Havia-se dirigido ao Sr. Tiedeman, para solicitar-lhe o concurso
pecuniário, mas este não estava resolvido a tomar parte nessa empresa. Allan Kardec
perguntou aos seus guias, no dia 15 de novembro de 1857, por intermédio da Srta. E.
Dufaux, o que deveria fazer.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 15
Foi-lhe respondido que pusesse a sua idéia em execução e que não se
inquietasse com o resto.
“Apressei-me em redigir o primeiro número, diz Allan Kardec, e o fiz
aparecer no dia 1° de janeiro de 1858, sem nada dizer a pessoa alguma. Não tinha
um único assinante, nem sócio capitalista. Fi-lo, pois, inteiramente por minha conta
e risco, e não tive de que me arrepender, porque o êxito ultrapassou a minha
expectativa. A partir de 1° de janeiro, os números se sucederam sem interrupção, e,
como o previra o Espírito, esse jornal se me tornou em poderoso auxiliar.
Reconheci, mais tarde, que era uma felicidade para mim não ter tido um sócio
capitalista, porque estava mais livre, enquanto que um estranho interessado teria
pretendido impor-me as suas idéias e a sua vontade e poderia embaraçar-me a
marcha. Só, eu não tinha que prestar contas a ninguém, por mais onerosa que, como
trabalho, fosse a minha tarefa.”
E essa tarefa devia ir sempre crescendo em labor e em responsabilidades, em
lutas incessantes contra obstáculos, emboscadas, perigos de toda sorte. À medida,
porém, que a lide se tornava mais áspera, esse enérgico trabalhador se elevava,
também, à altura dos acontecimentos, que nunca o surpreenderam; e durante onze
anos, nessa Revista Espírita, que acabamos de ver como começou tão
modestamente, ele afrontou todas as tempestades, todas as emulações, todos os
ciúmes que não lhe foram poupados, como ele mesmo relata e como lhe fora
anunciado ao ser-lhe revelada a sua missão. Essa comunicação e as reflexões de que
as anotou Allan Kardec nos mostram, sob um prisma pouco lisonjeiro, a situação
naquela época, mas fazem também ressaltar o grande valor do fundador do
Espiritismo e o seu mérito em ter sabido triunfar:
Médium, Mlle. Aline C. - 12 de junho de 1856:
P. - Quais são as causas que me poderiam fazer fracassar? Seria a
insuficiência das minhas aptidões?
R. - Não; mas a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos; a tua
é rude; previno-te, porque é ao mundo inteiro que se trata de agitar e de transformar.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 16
Não creias que te seja suficiente publicar um livro, dois livros, dez livros, e
ficares tranqüilamente em tua casa; não, é preciso te mostrares no conflito; contra ti
se açularão terríveis ódios, implacáveis inimigos tramarão a tua perda; estarás
exposto à calúnia, à traição, mesmo daqueles que te parecerão mais dedicados; as
tuas melhores instruções serão impugnadas e desnaturadas; sucumbirás mais de uma
vez ao peso da fadiga; em uma palavra, é uma luta quase constante que terás de
sustentar com o sacrifício do teu repouso, da tua tranqüilidade, da tua saúde e
mesmo da tua vida, porque tu não viverás muito tempo. Pois bem. Mais de um recua
quando, em lugar de uma vereda florida, não encontra sob seus passos senão
espinhos, agudas pedras e serpentes. Para tais missões não basta a inteligência. É
preciso antes de tudo, para agradar a Deus, humildade, modéstia, desinteresse,
porque abatem os orgulhosos e os presunçosos. Para lutar contra os homens, é
necessário coragem, perseverança e firmeza inquebrantáveis; é preciso, também, ter
prudência e tato para conduzir as coisas a propósito e não comprometer-lhes o êxito
por medidas ou palavras intempestivas; é preciso, enfim, devotamento, abnegação, e
estar pronto para todos os sacrifícios.
“Vês que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.
Espírito Verdade.”
NOTA - (É Allan Kardec que assim se exprime):
“Escrevo esta nota no dia 1° de janeiro de 1867, dez anos e meio depois que
esta comunicação me foi dada, e verifico que ela se realizou em todos os pontos,
porque experimentei todas as vicissitudes que nela me foram anunciadas. Tenho sido
alvo do ódio de implacáveis inimigos, da injúria, da calúnia, da inveja e do ciúme;
têm sido publicados contra mim infames libelos; as minhas melhores instruções têm
sido desnaturadas; tenho sido traído por aqueles em quem depositara confiança, e
pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado serviços. A Sociedade de
Paris tem sido um contínuo foco de intrigas, urdidas por aqueles que se diziam a
meu favor, e que, mostrando-se amáveis em minha presença, me detratavam na
ausência.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 17
Disseram que aqueles que adotavam o meu partido eram assalariados por mim
com o dinheiro que eu arrecadava do Espiritismo. Não mais tenho conhecido o
repouso; mais de uma vez, sucumbi; sob o excesso do trabalho, tem-se-me alterado a
saúde e comprometido a vida.
“Entretanto, graças à proteção e à assistência dos bons Espíritos, que sem
cessar me têm dado provas manifestas de sua solicitude, sou feliz em reconhecer que
não tenho experimentado um único instante de desfalecimento nem de desânimo, e
que tenho constantemente prosseguido na minha tarefa com o mesmo ardor, sem me
preocupar com a malevolência de que era alvo. Segundo a comunicação do Espírito
Verdade, eu devia contar com tudo isso, e tudo se verificou.”
*
Quando se conhecem todas essas lutas, todas as torpezas de que Allan Kardec
foi alvo, quanto ele se engrandece aos nossos olhos e como o seu brilhante triunfo
adquire mérito e esplendor! Que se tornaram esses invejosos, esses pigmeus que
procuravam obstruir-lhe o caminho? Na maior parte são desconhecidos os seus
nomes, ou nenhuma recordação despertam mais: o esquecimento os retomou e
sepultou para sempre em suas sombras, enquanto que o de Allan Kardec, o intrépido
lutador, o pioneiro ousado, passará à posteridade com a sua auréola de glória tão
legitimamente adquirida.
A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi fundada a 1° de abril de
1858. Até então, as reuniões se realizavam em casa de Allan Kardec, à rua dos
Mártires, com Mlle. E. Dufaux, como principal médium; o seu salão poderia conter
de quinze a vinte pessoas. Cedo, aí reuniu ele mais de trinta. Tornando-se, então,
esse local muito acanhado e não querendo onerar Allan Kardec com todos os
encargos, alguns dos assistentes se propuseram formar uma sociedade espírita e
alugar um outro local em que se efetuassem as reuniões. Mas era preciso, para se
poderem reunir, obter o reconhecimento e a autorização da Polícia.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 18
O Sr. Dufaux, que conhecia pessoalmente o prefeito de polícia de então,
encarregou-se de dar os passos para esse fim, e, graças ao ministro do Interior, o
general X., que era favorável às novas idéias, a autorização foi obtida em quinze
dias, enquanto que pelo processo ordinário teria exigido meses, sem grande
probabilidade de êxito.
“A Sociedade foi, então, regularmente constituída e reunia-se todas as
terças-feiras, no local que fora alugado no Palais-Royal, galeria Valois. Aí ficou
durante um ano, de 1° de abril de 1858 a 1° de abril de 1859. Não podendo lá
permanecer por mais tempo, reunia-se todas as sextas-feiras em um dos salões do
restaurante Douix, no Palais-Royal, galeria Montpensier, de 1° de abril de 1859 a
1° de abril de 1860, época em que se instalou em sede própria, à rua e passagem
Sant’Ana n° 59.”
Depois de haver dado conta das condições em que se formou a Sociedade e
da tarefa que teve a desempenhar, Allan Kardec assim se exprime (Revista
Espírita, 1859, pág. 169):
“Empreguei em minhas funções, que posso dizer laboriosas, toda a
solicitude e toda a dedicação de que era capaz; do ponto de vista administrativo,
esforcei-me por manter nas sessões uma ordem rigorosa e por imprimir-lhe um
caráter de gravidade, sem o qual o prestígio de assembléia séria teria cedo
desaparecido. Agora, que a minha tarefa está terminada e que o impulso está dado,
devo inteirar-vos da resolução que tomei, de renunciar de futuro a toda espécie de
função na Sociedade, mesmo a de diretor dos estudos; não ambiciono senão um
título - o de simples membro titular, com que me sentirei sempre feliz e honrado. O
motivo da minha determinação está na multiplicidade dos meus trabalhos, que
aumentam todos os dias, pela extensão das minhas relações; porque, além daqueles
que conheceis, preparo outros trabalhos mais consideráveis, que exigem longos e
laboriosos estudos e não absorverão menos de dez anos; ora, os trabalhos da
Sociedade não deixam de tomar muito tempo, quer para o preparo, quer para a
coordenação e a passagem a limpo. Reclamam assiduidade muitas vezes
prejudicial às minhas ocupações pessoais, pois que se torna indispensável a
iniciativa quase exclusiva que me tendes deixado.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 19
É a esse motivo, meus senhores, que eu devo o ter tantas vezes tomado a
palavra, lamentando com freqüência que os membros eminentemente esclarecidos
que possuímos nos privassem das suas luzes. Desde muito tempo alimentava o
desejo de demitir-me das minhas funções: manifestei-o de modo muito explícito em
diversas ocasiões, quer aqui, quer em particular a muitos dos meus colegas, e
especialmente ao Sr. Ledoyen. Tê-lo-ia feito mais cedo, se não fora o temor de
produzir uma perturbação na Sociedade. Retirando-me no meado do ano, poderiam
acreditar em uma deserção, e era preciso não dar esse prazer aos nossos adversários.
Desempenhei, portanto, a minha tarefa até ao fim; hoje, porém, que esses motivos
cessaram, apresso-me em vos dar parte da minha resolução, para não embaraçar a
escolha que fareis. É justo que cada um tenha a sua parte nos encargos e nas
honras.”
Apressemo-nos a acrescentar que essa demissão não foi aceita e que Allan
Kardec foi reeleito por unanimidade, menos um voto e uma cédula em branco.
Diante desse testemunho de simpatia, ele se submeteu e se conservou em suas
funções.
Em setembro de 1860, Allan Kardec fez uma viagem de propaganda à nossa
região, e eis aqui como a ela fez referência na Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas:
“O Sr. Allan Kardec dá conta do resultado da viagem que acaba de fazer, no
interesse do Espiritismo, e felicita-se pela cordialidade do acolhimento que por toda
parte encontrou, especialmente em Sens, Mácon, Lião e Saint-Etienne. Observou,
em todo lugar em que se demorou, os progressos consideráveis da doutrina; mas o
que sobretudo é digno de nota, é que em parte alguma viu que dela se fizesse um
divertimento, mas, que, ao contrário, dela se ocupam de modo sério, e que por toda
parte lhe compreendem o alcance e as conseqüências futuras. Há, sem dúvida,
muitos adversários, sendo os mais encarniçados os inimigos interessados, mas os
motejadores diminuem sensivelmente; vendo que os seus
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 20
sarcasmos não colocam do seu lado os gracejadores, e que auxiliam mais do que
impedem o progresso das novas crenças, começam a compreender que nada ganham
com isso e que consomem o seu espírito em pura perda, e assim se calam. Uma frase
muito característica parece ser em toda parte a ordem do dia, e é esta: o Espiritismo
está no ar; só por si desenha ela o estado das coisas. Mas, é sobretudo em Lião que
são mais notáveis os resultados. Os espíritas são, aí, numerosos em todas as classes,
e na classe operária contam-se por centenas. A Doutrina Espírita tem exercido sobre
os operários a mais salutar influência, sob o ponto de vista da ordem, da moral e das
idéias religiosas; em resumo, a propagação do Espiritismo marcha com a mais
animadora celeridade.”
No decurso dessa viagem, Allan Kardec pronunciou um discurso magistral,
no banquete realizado a 19 de setembro de 1860, do qual eis aqui algumas
passagens, próprias a nos interessar, a nós que aspiramos a substituir dignamente
esses trabalhadores da primeira hora:
“A primeira coisa que me impressionou foi o números de adeptos; eu sabia
perfeitamente que Lião os contava em grande escala, mas estava longe de imaginar
que o número fosse tão considerável, porque é por centenas que eles se contam, e,
em pouco tempo - eu o espero -, já se não poderão contar mais.
“Se, porém, Lião se distingue pelo número, não o faz menos pela qualidade, o
que ainda vale mais. Por toda parte não encontrei senão espíritas sinceros,
compreendendo a doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista. Há, meus senhores,
três categorias de adeptos: uns que se limitam a crer na realidade das manifestações
e que procuram, antes de tudo, os fenômenos; o Espiritismo é simplesmente para
eles uma série de fatos mais ou menos interessantes. Os segundos vêem outra coisa
nele além dos fatos, compreendem o seu alcance filosófico, admiram a moral que
deles decorre, mas não a praticam; para eles, a caridade cristã é uma bela máxima, e
nada mais. Os terceiros, finalmente, não se contentam de admirar a moral: praticamna
e aceitam-lhe as conseqüências.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 21
Bem convencidos de que a existência terrestre é uma prova passageira,
esforçam-se por aproveitar esses curtos instantes, para marchar na senda do
progresso que lhes traçam os Espíritos, emprenhando-se em fazer o bem e em
reprimir as suas más inclinações; as suas relações são sempre seguras, porque as
suas convicções os afastam de todo pensamento do mal; a caridade é, em toda
ocasião, a regra da sua conduta: são esses os verdadeiros espíritas, ou, melhor, os
espíritas-cristãos.
“Pois bem, meus senhores, eu vo-lo digo com satisfação: ainda não encontrei,
aí, nenhum adepto da primeira categoria; em parte alguma vi que se ocupassem do
Espiritismo por mera curiosidade, com frívolos intuitos; por toda parte o fim é grave,
as intenções são sérias; e, a crer no que me dizem, há muitos da terceira categoria.
Honra, pois, aos espíritas lioneses, por terem, assim, entrado largamente nessa senda
progressista, sem a qual o Espiritismo não teria objetivo. Este exemplo não será
perdido, terá suas conseqüências, e não é sem razão - eu o vejo - que os Espíritos me
responderam noutro dia, por um dos vossos médiuns mais dedicados, posto que dos
mais obscuros, quando eu lhes exprimia a minha surpresa: “Por que te admiras
disso? Lião foi a cidade dos mártires; a fé aí é vivaz; ela fornecerá apóstolos ao
Espiritismo. Se Paris é a cabeça, Lião será o coração.”
Essa opinião de Allan Kardec, sobre os espíritas lioneses de sua época, é para
nós grande honra, mas deve ser também uma regra de conduta. Devemos esforçarnos
por merecer esses elogios, aprofundando por nossa vez as lições do Mestre e,
sobretudo, conformando com elas o nosso proceder. Noblesse oblige, diz um adágio;
saibamo-nos recordar sempre disso e conservar alto e firme o estandarte do
Espiritismo.
Mas, Allan Kardec não se contentava em atirar flores sobre nossos
companheiros; dava-lhes, sobretudo, sábios conselhos, sobre os quais, por nossa vez,
deveremos meditar.
“Vindo dos Espíritos o ensino, os diferentes grupos, tantos como os
indivíduos, se acham sob a influência de certos Espíritos, que presidem aos seus
trabalhos, ou os dirigem moralmente.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 22
Se esses Espíritos não se acham de acordo, a questão está em saber qual é o
que merece maior confiança; será, evidentemente, aquele cuja teoria não pode
provocar nenhuma objeção séria, em uma palavra, aquele que, em todos os pontos,
dá maior número de provas de superioridade. Se tudo nesse ensino é bom, racional,
pouco importa o nome que toma o Espírito; e a esse respeito a questão de identidade
é inteiramente secundária. Se, sob um nome respeitável, o ensino peca pelas
qualidades essenciais, podeis imediatamente concluir que é um nome apócrifo e que
é um Espírito impostor ou galhofeiro. Regra geral: o nome nunca é uma garantia; a
única, a verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira porque é
ele expresso. Os Espíritos enganadores tudo podem imitar, tudo, exceto o verdadeiro
saber e o verdadeiro sentimento.
“Acontece muitas vezes que, para fazer adotar certas utopias, alguns Espíritos
fazem alarde de um falso saber e pensam impô-las, escolhendo no arsenal das
palavras técnicas tudo o que pode fascinar aquele que é facilmente crédulo. Eles
têm, ainda, um meio mais certo: é afetar as exterioridades da virtude; com o auxílio
das grandes palavras - caridade, fraternidade, humildade - esperam fazer passar os
mais grosseiros absurdos e é o que acontece muitas vezes, quando se não está
precavido. É preciso, pois, evitar o deixar-se seduzir pelas aparências, tanto da parte
dos Espíritos, quanto da dos homens; ora, eu o confesso, aí está uma das maiores
dificuldades; mas, nunca se disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil; tem seus
escolhos que se não podem evitar senão pela experiência. Para escapar à cilada, é
preciso, antes de tudo, fugir ao entusiasmo que cega, ao orgulho que leva certos
médiuns a acreditarem-se os únicos intérpretes da verdade; é preciso que tudo seja
friamente examinado, maduramente pesado, confrontado, e, se desconfiamos do
próprio julgamento, o que é muitas vezes mais prudente, é preciso recorrer a outras
pessoas, segundo o provérbio: que quatro olhos vêem melhor do que dois. Só um
falso amor próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma idéia
notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele.”
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 23
Eis os conselhos tão sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram
fazer passar por um entusiasta, um místico, um alucinado; e essa regra de conduta,
estabelecida no começo, ainda não foi invalidada, nem pela observação, nem pelos
acontecimentos; é sempre a vereda mais segura, mais prudente, a única a seguir por
aqueles que se querem ocupar do Espiritismo.
Allan Kardec trabalhava, então, em O Livro dos Médiuns, que apareceu na
primeira quinzena de janeiro de 1861, editado pelos Srs. Didier & Cia., livreiroseditores.
O mestre expõe a sua razão de ser nos seguintes termos, na Revista
Espírita:
“Procuramos neste trabalho, fruto de longa experiência e de laboriosos
estudos, esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações; ele
contém, de acordo com os Espíritos, a explicação teórica dos diversos fenômenos e
condições em que eles se podem produzir; mas a parte concernente ao
desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi, sobretudo, de nossa parte,
objeto de atenção toda especial.
“O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que
se acredita geralmente, e os escolhos, que aí se encontram, são numerosos; é o que
produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os
conhecimentos necessários. O nosso fim foi acautelar os investigadores contra tais
dificuldades, nem sempre isentas de inconvenientes para quem quer que se aventure,
com imprudência, por esse novo terreno. Não podíamos desprezar um ponto tão
capital, e o tratamos com cuidado igual à sua importância.”
O Livro dos Médiuns é, ainda, o vade-mécum de quantos se querem entregar
com proveito à prática do Espiritismo experimental; nada apareceu de melhor nem
de mais completo nessa ordem de idéias. É ainda o mais seguro guia de que nos
podemos servir para explorar, sem perigo, o terreno da mediunidade.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 24
*
No ano de 1861, Allan Kardec fez uma nova viagem espírita a Sens, Mácon e
Lião, e verificou que em nossa cidade o Espiritismo atingira a maioridade.
“Com efeito, não é mais por centenas, diz ele, que aí se contam os espíritas,
como há um ano; é por milhares, ou, para melhor dizer, já se não contam, e pode-se
calcular que, seguindo a mesma progressão, dentro de um ano ou dois eles serão
mais de trinta mil. O Espiritismo, aí, tem feito adeptos em todas as classes, mas é
sobretudo na classe operária que se tem propagado com maior rapidez, e isso não é
de admirar: sendo essa classe a que mais sofre, volta-se para o lado que lhe oferece
maior consolação. Se aqueles que clamam contra o Espiritismo lhe oferecessem
outro tanto, essa classe se voltaria para eles; mas, ao contrário, querem tirar-lhe
exatamente aquilo que a ajuda a carregar o seu fardo de miséria. E isto tem sido o
meio mais seguro de perderem as suas simpatias e fazê-la engrossar as nossas
fileiras. O que vimos com os nossos próprios olhos é de tal modo característico e
encerra ensino tão grande, que acreditamos dever consagrar aos operários a maior
parte do nosso relatório.
“No ano passado, só havia um único centro de reunião, o dos Brotteaux,
dirigido por Dijoux, chefe de oficina, e sua mulher; depois, formaram-se outros em
diferentes pontos da cidade: em Guillotière, em Perrache, em Croix-Rousse, em
Vaise, em Saint-Just, etc., sem contar grande número de reuniões particulares.
Então, havia apenas dois ou três médiuns neófitos; hoje os há em todos os grupos e
muitos são de primeira ordem; em um só grupo vimos cinco escreverem
simultaneamente. Vimos, igualmente, um rapaz muito bom médium vidente, no qual
pudemos verificar essa faculdade desenvolvida no mais alto grau.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 25
“Sem dúvida, muito é para desejar que se multipliquem os adeptos, mas o que
mais vale ainda do que o número é a qualidade. Pois bem, declaramo-lo bem alto:
não vimos, em parte alguma, reuniões espíritas mais edificantes do que as dos
operários lioneses, quanto à ordem, ao recolhimento e à atenção que prestam às
instruções dos seus guias espirituais; há homens, velhos, senhoras, jovens, crianças
mesmo, cuja atitude respeitosa contrasta com a sua idade; jamais uma única criança
perturbou por instantes o silêncio das nossas reuniões, muitas vezes longas;
pareciam quase tão ávidas quanto seus pais, em recolher as nossas palavras.
“Mas, isto não é tudo: o número das metamorfoses morais é, entre os
operários, quase tão grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados,
paixões acalmadas, ódios apaziguados, lares tornados tranqüilos, em uma palavra, as
mais legítimas virtudes cristãs desenvolvidas, e isso pela confiança, de agora em
diante inabalável, que lhes dão as comunicações espíritas, no futuro em que não
acreditavam; é uma felicidade para eles assistirem a essas instruções, de que saem
reconfortados contra a adversidade; muitos chegam a galgar mais de uma légua, sob
qualquer tempo, inverno ou verão, tudo arrostando para não faltarem a uma sessão; é
que neles não há a fé vulgar, mas a baseada sobre uma convicção profunda,
raciocinada e não, cega.”
Por ocasião dessa viagem, um banquete novamente reuniu sob a presidência
de Allan Kardec os membros da grande família espírita lionesa. No dia 19 de
setembro de 1860 os convivas eram apenas uns trinta; a 19 de setembro de 1861 o
número era de cento e sessenta, “representando os diferentes grupos, que se
consideram todos como membros de uma grande família, entre os quais não existe
sombra de ciúme e de rivalidade, o que - diz o Mestre -, temos, de passagem, grande
satisfação em registrar. A maioria dos assistentes era composta de operários e toda
gente notou a perfeita ordem que não cessou de reinar um só instante. É que os
verdadeiros espíritas põem sua satisfação nas alegrias do coração e não nos prazeres
ruidosos.”
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 26
A 14 de outubro do mesmo ano encontramos Allan Kardec em Bordéus, onde,
como em todas as cidades por que passava, semeava a boa-nova e fazia germinar a fé
no futuro.
Além das viagens e dos trabalhos de Allan Kardec, esse ano de 1861
permanecerá memorável nos anais do Espiritismo por um fato de tal modo
monstruoso que quase parece incrível. Refiro-me ao auto-de-fé levado a efeito em
Barcelona, e em que foram queimadas pela fogueira dos inquisidores trezentas obras
espíritas.
O Sr. Maurício Lachâtre estava nessa época estabelecido como livreiro, em
Barcelona, em relações e em comunhão de idéias com Allan Kardec. Assim, pediu a
este que lhe enviasse certo número de obras espíritas, para as expor à venda e fazer
propaganda da nova filosofia.
Essas obras, em número de trezentas aproximadamente, foram expedidas nas
condições ordinárias, com uma declaração em ordem do conteúdo das caixas. À sua
chegada à Espanha, foram os direitos da alfândega cobrados ao destinatário e
arrecadados pelos agentes do governo espanhol; mas a entrega das caixas não se fez:
o bispo de Barcelona, tendo julgado esses livros perniciosos à fé católica, fez
confiscar a expedição pelo Santo-Ofício.
Uma vez que não queriam entregar essas obras ao destinatário, Allan Kardec
reclamou a sua devolução; mas a sua reclamação foi de nulo efeito, e o bispo de
Barcelona, erigindo-se em policiador da França, fundamentou a sua recusa com a
seguinte resposta: “A Igreja Católica é universal, e sendo esses livros contrários à fé
católica, o governo não pode consentir que eles passem a perverter a moral e a
religião de outros países.”
E não somente esses livros não foram restituídos, mas também os direitos
aduaneiros ficaram em poder do fisco espanhol. Allan Kardec poderia promover uma
ação diplomática e obrigar o governo espanhol a efetuar o retorno das obras. Os
Espíritos, porém, o dissuadiram disso, dizendo que era preferível para a propaganda
do Espiritismo deixar essa ignomínia seguir o seu curso.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 27
Renovando os fastos e as fogueiras da idade Média, o bispo de Barcelona fez
queimar em praça pública, pela mão do carrasco, as obras incriminadas.
Eis aqui, a título de documento histórico, o processo verbal dessa infâmia
clerical:
“Aos nove dias de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e
meia da manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, no lugar em que são
executados os criminosos condenados à pena última, por ordem do bispo desta
cidade foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:
“A Revista Espírita, diretor Allan Kardec;
“A Revista Espiritualista, diretor Piérart;
“O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;
“O Livro dos Médiuns, pelo mesmo;
“O que é o Espiritismo, pelo mesmo;
“Fragmento de Sonata, ditado pelo Espírito de Mozart;
“Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo Doutor Grand;
“A História de Joanna d’Arc, por ela mesma ditada a Mlle. Ernance Dufaux;
“A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo Barão de
Guldenstubbé.
“Assistiram ao auto-de-fé:
“Um padre revestido de hábitos sacerdotais, trazendo em uma das mãos a cruz
e, na outra, uma tocha;
“Um tabelião encarregado de redigir o processo verbal do auto-de-fé;
“O escrevente do tabelião;
“Um empregado superior da administração das alfândegas;
“Três mozos (serventes) da alfândega, encarregados de alimentar o fogo;
“Um agente da alfândega, representando o proprietário das obras condenadas
pelo bispo;
“Uma multidão incalculável aglomerava-se nos passeios e cobria a esplanada
em que ardia a fogueira.
“Quando o fogo consumiu os trezentos volumes e brochuras espíritas, o padre
e os seus ajudantes se retiraram cobertos pelos apupos e as maldições dos numerosos
assistentes, que gritavam: Abaixo a Inquisição!
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 28
“Em seguida muitas pessoas se acercaram da fogueira e apanharam cinzas.”
Seria diminuir o horror de tais atos, acompanhá-los com a narrativa dos
comentários; constatemos somente que ao clarão dessa fogueira o Espiritismo tomou
um incremento inesperado em toda a Espanha e, como o haviam os Espíritos
previsto, conquistou, aí, um número incalculável de adeptos. Só podemos, pois,
como o fez Allan Kardec, alegrar-nos com o grande reclamo que esse ato odioso
operou em favor do Espiritismo. A propósito, porém, da propaganda que nós
mesmos devemos fazer da nossa filosofia, nunca deveremos esquecer estes
conselhos do Mestre (Revista Espírita, 1863, pág. 367):
“O Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam, e não aos que
têm fé e a quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às suas
crenças para adotar as nossas, e nisto é conseqüente com os princípios de tolerância
e de liberdade de consciência que professa. Por esse motivo não poderíamos aprovar
as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas idéias o clero, de
qualquer comunhão que seja. Repetiremos, pois, a todos os espíritas: acolhei com
solicitude os homens de boa-vontade; oferecei a luz aos que a procuram, porque com
os que crêem não sereis bem sucedidos; não façais violência à fé de ninguém, muito
mais quanto ao clero que aos seculares, porque semeareis em campos áridos; ponde
a luz em evidência, para que a vejam os que quiserem ver; mostrai os frutos da
árvore e deles dai de comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados.”
Estes conselhos, como todos os de Allan Kardec, são claros, simples e
sobretudo práticos; cumpre que deles nos recordemos e os aproveitemos
oportunamente.
*
O ano de 1862 foi fértil em trabalhos favoráveis à difusão do Espiritismo. No
dia 15 de janeiro apareceu a pequenina e excelente brochura de propaganda: O
Espiritismo em sua mais simples expressão.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 29
“O fim desta publicação, diz Allan Kardec, é apresentar, em quadro muito
resumido, um histórico do Espiritismo e uma idéia suficiente da doutrina dos
Espíritos, para permitir ser compreendido o seu fim moral e filosófico. Pela clareza e
simplicidade do estilo, procuramos pô-lo ao alcance de todas as inteligências.
Contamos com o zelo de todos os verdadeiros espíritas, para que lhe auxiliem a
propagação.”- Este apelo foi ouvido, porque a pequena brochura se espalhou em
profusão, devendo muitos a esse excelente trabalho o terem compreendido o fim e o
alcance do Espiritismo.
Tendo os nossos predecessores no Espiritismo transmitido a Allan Kardec,
por ocasião do Ano-Novo, a expressão dos seus sentimentos de gratidão, eis aqui
como respondeu o Mestre a esse testemunho de simpatia:
“Meus caros irmãos e amigos de Lião:
“A manifestação coletiva que tivestes a bondade de transmitir-me, por ocasião
do Ano-Novo, produziu-me vivíssima satisfação, provando-me que conservastes de
mim uma boa recordação; mas, o que me causou maior prazer, nesse ato espontâneo
de vossa parte, foi encontrar, entre as numerosas assinaturas que nele figuram,
representantes de quase todos os grupos, porque é um sinal da harmonia que reina
entre eles. Sou feliz por ver que compreendestes perfeitamente o fim dessa
organização, cujos resultados desde já podeis apreciar, porque deve ser agora
evidente para vós que uma sociedade única seria quase impossível.
“Agradeço, meus bons amigos, os votos que fazeis por mim; eles me são tanto
mais agradáveis quanto sei que partem do coração, e são os que Deus atende. Ficai,
pois, satisfeitos, porque Ele os ouve todos os dias, proporcionando-me a
extraordinária satisfação no estabelecimento de uma nova doutrina, de ver aquela a
que me tenho dedicado engrandecer e prosperar, em minha vida, com uma rapidez
maravilhosa; considero um grande favor do céu ser testemunha do bem que ela já
produz.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 30
“Esta certeza, de que recebo diariamente os mais tocantes testemunhos, me
paga com usura todos os meus sofrimentos, todas as minhas fadigas; não peço a
Deus senão uma graça, e é a de dar-me a força física necessária para ir até ao fim da
minha tarefa, que longe se encontra de estar concluída; mas, como quer que suceda,
possuirei sempre a maior consolação, pela certeza de que a semente das idéias
novas, espalhada agora por toda parte, é imperecível; mais feliz que muitos outros,
que não trabalharam senão para o futuro, é-me permitido contemplar os primeiros
frutos.
“Se alguma coisa lamento, é que a exigüidade dos meus recursos pessoais me
não permita pôr em execução os planos que concebi para um avanço ainda mais
rápido; se Deus, porém, em sua sabedoria, entendeu dispor de modo diferente,
legarei esses planos aos nossos sucessores, que, sem dúvida, serão mais felizes. A
despeito da escassez dos recursos materiais, o movimento que se opera na opinião
ultrapassou toda a expectativa; crede, meus irmãos, que nisso o vosso exemplo não
terá sido sem influência, Recebei, portanto, as nossas felicitações pela maneira
porque sabeis compreender e praticar a Doutrina.
“No ponto a que hoje chegaram as coisas, e tendo em vista a marcha do
Espiritismo através dos obstáculos semeados em seu caminho, pode dizer-se que as
principais dificuldades estão superadas; ele conquistou o seu lugar e está assente
sobre bases que de ora em diante desafiam os esforços dos seus adversários.
“Perguntam como uma doutrina, que torna feliz e melhor, pode ter inimigos; é
natural; o estabelecimento das melhores coisas choca sempre interesses, ao começar.
Não tem acontecido assim com todas as invenções e descobertas que têm
revolucionado a indústria? As que hoje são consideradas como benefícios, sem as
quais não se poderia mais passar, não tiveram inimigos obstinados? Toda lei que
reprime um abuso não tem contra si todos os que vivem dos abusos?
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 31
Como quereríeis que uma doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva
não fosse combatida por todos os que vivem no egoísmo? E sabeis que são eles
numerosos na Terra!
“No começo contaram sepultá-la com a zombaria; hoje vêem que essa arma é
impotente e que, sob o fogo dos sarcasmos, ela prosseguiu o seu caminho sem
tropeçar. Não acrediteis que se confessem vencidos; não, o interesse material é
tenaz. Reconhecendo que é uma potência com que é necessário de hoje em diante
contar, vão dirigir-lhe assaltos mais sérios, mas que só servirão diretamente por
palavras e atos, e a perseguirão até na pessoa dos seus adeptos, que eles se
esforçarão por desalentar a poder de embaraços, enquanto que outros, secretamente e
por caminhos disfarçados, procurarão miná-la surdamente.
“Ficai prevenidos de que a luta não está terminada; fui avisado de que eles
vão tentar um supremo esforço. Não tenhais, porém, receio: o penhor da vitória está
nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há
salvação. Arvorai-a bem alto, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas.
“A tática, posta já em prática pelos inimigos dos espíritas, mas que eles vão
empregar com novo ardor, é tentar dividi-los criando sistemas divergentes e
suscitando entre eles a desconfiança e o ciúme. Não vos deixeis cair no laço, e tende
como certo que quem quer que procure um meio, qualquer que seja, para quebrar a
boa harmonia, não pode ter boa intenção. É por isso que vos recomendo useis da
maior circunspeção na formação dos vossos grupos, não somente para vossa
tranqüilidade, como no próprio interesse dos vossos labores.
“A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há
recolhimento possível se se está preocupado com discussões e com a manifestação
de sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos malévolos se houver
fraternidade; não pode, porém, haver fraternidade em egoístas, ambiciosos e
orgulhosos.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 32
Entre orgulhosos, que se suscetibilizam e ofendem por tudo, ambiciosos que
se sentirão mortificados se não tiverem a supremacia, egoístas que não pensam senão
em si, a cizânia não pode tardar a introduzir-se, e com ela a dissolução. É o que
desejariam os nossos inimigos, e é o que eles procuram fazer.
“Se um grupo quer estar em condições de ordem, de tranqüilidade e de
estabilidade, é preciso que nele reine o sentimento fraternal. Todo grupo ou
sociedade que se formar, sem ter caridade efetiva por base, não tem validade;
enquanto que aqueles que forem fundados de acordo com o verdadeiro espírito da
doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, não sendo possível
habitarem todos sob o mesmo teto, moram em lugares diferentes. A rivalidade entre
eles seria um contra-senso; ela não poderia existir onde reina a verdadeira caridade,
porque a caridade não se pode entender de duas maneiras.
“Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita na prática da caridade por
pensamentos, palavras e obras, e persuadi-vos de quem quer que nutra em sua alma
sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si
próprio se tem a pretensão de compreender e praticar o Espiritismo.
“O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os
novos e a sociedade em geral...”
Tudo mereceria citação nestes conselhos, tão justos quão práticos; mas é
preciso que nos limitemos, em razão do tempo de que podemos dispor.
*
A pedido dos espíritas de Lião e de Bordéus, Allan Kardec fez, em setembro
e outubro, uma longa viagem de propaganda semeando por toda parte a boa-nova e
prodigalizando conselhos, mas somente aos que lhos pediam; o convite feito pelos
grupos lioneses estava subscrito por quinhentas assinaturas. Uma publicação
especial deu conta dessa viagem de mais de seis semanas, durante a qual o Mestre
presidiu a mais de cinqüenta reuniões em vinte cidades, onde por toda parte foi alvo
do mais cordial acolhimento e se sentiu feliz por verificar os imensos progressos do
Espiritismo.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 33
A respeito das viagens de Allan Kardec, como certas influências hostis
houvessem espalhado o boato de que eram feitas a expensas da Sociedade Parisiense
de Estudos Espíritas, sobre cujo orçamento igualmente ele sacava de antemão todos
os seus gastos de correspondência e de manutenção, o Mestre rebateu, assim, essa
falsidade:
“Muitas pessoas, sobretudo na província, pensaram que as despesas dessas
viagens oneravam a Sociedade de Paris; tivemos que desfazer esse erro quando se
ofereceu a ocasião; aos que ainda o pudessem partilhar, recordaremos o que
afirmamos noutra circunstância (número de junho de 1862, página 167, Revista
Espírita), que a Sociedade se limita a prover às suas despesas correntes e não possui
reservas; para que pudesse acumular capital, ser-lhe-ia preciso que tivesse em mira o
número; e isto é o que ela não faz nem quer fazer, porque o seu fim não é a
especulação e porque o número nada acrescenta à importância dos trabalhos. Sua
influência é toda moral e está no caráter de suas reuniões, que dão aos estranhos a
idéia de uma assembléia grave e séria; aí está o seu mais poderoso meio de
propaganda. Ela, pois, não poderia prover tal despesa. Os gastos de viagem, como
todos os que as nossas relações reclamam para o Espiritismo, são tirados dos nossos
recursos pessoais e das nossas economias, aumentadas com o produto das nossas
obras, sem o qual nos seria impossível prover a todos os encargos, que são para nós
a conseqüência da obra que empreendemos. Isto é dito sem vaidade e unicamente
para render homenagem à verdade, e para edificação daqueles aos quais se afigura
que nós capitalizamos.”
Em 1862 Allan Kardec fez também aparecer uma Refutação às críticas contra
o Espiritismo9, no ponto de vista do materialismo, da ciência e da religião.
9 Allan Kardec, no livro “Voyage Spirite en 1862” (Ledoyen, Paris, 1862, Gr.in-8°, 64 p.p.), revela ter
desistido da idéia de publicar o opúsculo que anunciara um ano antes (Revue Spirite, 1861, dez., p. 371) e
que seria intitulado “Réfutation des critiques contre le Spiritisme au point de vue matérialiste, scientifique et
religieux”. - Nota da FEB.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 34
Em abril de 1864 publicou a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo,
com a explicação das máximas morais do Cristo, sua aplicação e sua concordância
com o Espiritismo. O título dessa obra foi depois modificado, e é hoje O Evangelho
segundo o Espiritismo.
Aproveitando-se da época das férias, Allan Kardec fez em setembro de 1864
uma viagem a Antuérpia e a Bruxelas. Expondo aos espíritas belgas o seu modo de
ver acerca dos grupos e sociedades espíritas, recorda o que já havia dito em Lião, em
1861: “Vale mais, portanto, haver em uma cidade cem grupos de dez a vinte adeptos,
em que nenhum se arrogue a supremacia sobre os outros, do que uma única
sociedade que a todos reunisse. Esse fracionamento em nada pode prejudicar a
unidade dos princípios, desde que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para
um mesmo fim.”
As sociedades numerosas têm sua razão de ser sob o ponto de vista da
propaganda; mas, quanto aos estudos sérios e continuados, é preferível constituíremse
grupos íntimos.
No dia 1° de agosto de 1865, Allan Kardec fez aparecer uma nova obra - O
Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo, na qual são
mencionados numerosos exemplos da situação dos Espíritos, no mundo espiritual e
na Terra, e as razões que motivaram essa situação.
Os admiráveis êxitos do Espiritismo, seu desenvolvimento quase incrível,
criaram-lhe inúmeros inimigos e, à proporção que ele se foi engrandecendo,
aumentou, também, a tarefa de Allan Kardec. O Mestre possuía uma vontade de
ferro, um poder de combatividade extraordinários; era um trabalhador infatigável; de
pé, em qualquer estação, desde às 4 horas e meia, respondia a tudo, às polêmicas
veementes dirigidas contra o Espiritismo, contra ele próprio, às numerosas
correspondências que lhe eram dirigidas; atendia à direção da Revista Espírita e da
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, à organização do Espiritismo e ao
preparo das suas obras.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 35
Esse excesso físico e intelectual esgotou-lhe o organismo, e repetidas vezes os
Espíritos precisam chamá-lo à ordem, a fim de obrigá-lo a poupar a saúde. Ele,
porém, sabe que não deve durar mais que uns dez anos ainda: numerosas
comunicações o preveniram desse termo e lhe anunciaram mesmo que a sua tarefa
não seria concluída senão em nova existência, que sucederia a breve trecho à sua
próxima desencarnação; por isso ele não quer perder ocasião alguma de dar ao
Espiritismo tudo o que pode, em força e vitalidade.
Em 1867 faz uma curta viagem a Bordéus, Tours e Orleans; em seguida põe
novamente mãos à obra, para publicar, em janeiro de 1868, A Gênese, os milagres e
as predições segundo o Espiritismo. É das mais importantes esta obra, porque
constitui, sob o ponto de vista científico, a síntese dos quatro primeiros volumes já
publicados.
Allan Kardec ocupa-se, em seguida, de um projeto de organização do
Espiritismo, por meio do qual espera imprimir mais vigor, mais ação à filosofia de
que se fez apóstolo, procurando desenvolver-lhe o lado prático e fazer-lhe produzir
seus frutos. O objeto constante das suas preocupações é saber quem o substituirá em
sua obra, porque sente que o desenlace está próximo; e a constituição que elabora
tem precisamente por fim prover às necessidades futuras da Doutrina Espírita.
Desde os primeiros anos do Espiritismo, Allan Kardec havia comprado, com
o produto das suas obras pedagógicas, 2.666 metros quadrados de terreno na avenida
Ségur, atrás dos Inválidos. Tendo essa compra esgotado os seus recursos, ele
contraiu com o Crédit Foncier um empréstimo de 50.000 francos para fazer construir
nesse terreno seis pequenas casas, com jardim; alimentava a doce esperança de
recolher-se a uma delas, na Vila Ségur, e torná-la-ia depois da sua morte asilo a que
se pudessem recolher na velhice os defensores indigentes do Espiritismo.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 36
Em 1869 a Sociedade Espírita era reconstituída e tornada sociedade anônima,
com o capital de 40.000 francos, dividido em quarenta ações, para a exploração da
livraria, da Revista Espírita e das obras de Allan Kardec. A nova sociedade devia
instalar-se no dia 1° de abril, à rua de Lille n° 7.
Allan Kardec, cujo contrato de arrendamento na passagem Sant’Ana estava
quase a terminar, contava retirar-se para a Vila Ségur, a fim de trabalhar mais
ativamente nas obras que lhe restava fazer e cujo plano e documentos se achavam já
reunidos. Estava, pois, em todos os preparativos de mudança de domicílio, quando a
31 de março a doença de coração que o minava surdamente pôs termo à sua robusta
constituição e, como um raio, o arrebatou à afeição dos seus discípulos. Essa perda
foi imensa para o Espiritismo, que via desaparecer o seu fundador e mais poderoso
propagandista, e lançou em profunda consternação todos os que o haviam conhecido
e amado.
Hippolyte-Léon-Denizard Rivail - Allan Kardec - faleceu em Paris, rua e
passagem Sant’Ana, 59, 2ª circunscrição e mairie de la Banque, em 31 de março de
1869, na idade de 65 anos, sucumbindo da ruptura de um aneurisma.
Unânimes sentimentos acolheram a dolorosa notícia, e numerosíssima
concorrência acompanhou ao Père Lachaise10, sua derradeira morada, os despojos
mortais daquele que fora Allan Kardec, daquele que, através dos tempos, brilhará
como um meteoro fulgurante na aurora do Espiritismo.
10 Ver “Reformador” de abril de 1957, pág. 93.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 37
Quatro orações foram proferidas à beira do túmulo do Mestre: a primeira,
pelo Sr. Levent, em nome da Sociedade Espírita de Paris; a segunda, pelo Sr. Camilo
Flammarion, que não fez somente um esboço do caráter de Allan Kardec e do papel
que cabe aos seus trabalhos no movimento contemporâneo, mais ainda, e sobretudo,
um exame da situação das ciências físicas, no ponto de vista do mundo invisível, das
forças naturais desconhecidas, da existência da alma e da sua indestrutibilidade. Em
seguida, tomou a palavra o Sr. Alexandre Delanne, em nome dos espíritas dos
centros afastados; e, depois, o Sr. E. Muller, em nome da família e dos seus amigos,
dirigiu ao morto querido os últimos adeuses.
A senhora Allan Kardec tinha 74 anos por ocasião da morte de seu esposo.
Sobreviveu-lhe até 1883, ano em que, a 21 de janeiro, se extinguiu, na idade de 89
anos, sem herdeiros diretos.
Erraria quem acreditasse que, em virtude dos seus trabalhos, Allan Kardec
devia ser uma personagem sempre fria e austera. Não era, entretanto, assim. Esse
grave filósofo, depois de haver discutido pontos mais difíceis da psicologia e da
metafísica transcendental, mostrava-se expansivo, esforçando-se por distrair os
convidados que ele freqüentemente recebia na Vila Ségur; conservando-se sempre
digno e sóbrio em suas expressões, sabia adubá-las com o nosso velho sal gaulês em
rasgos de causticante e afetuosa bonomia. Gostava de rir com esse belo riso franco,
largo e comunicativo, e possuía um talento todo particular em fazer os outros
partilharem do seu bom-humor.
Todos os jornais da época se ocuparam da morte de Allan Kardec e
procuraram medir-lhe as conseqüências. Eis aqui, a título de lembrança, o que a esse
respeito escrevia o Sr. Pagès de Noyez, no Journal de Paris, de 3 de abril de 1869:
“Aquele que por tão longo tempo ocupou o mundo científico e religioso sob o
pseudônimo de Allan Kardec, chamava-se Rivail e morreu na idade de 65 anos.
“Vimo-lo deitado num simples colchão, no meio da sala das sessões a que há
tantos anos ele presidia; vimo-lo com o semblante calmo como se extinguem aqueles
a quem a morte não surpreende e que, tranqüilos quanto ao resultado de uma vida
honesta e laboriosamente preenchida, imprimem como que um reflexo da pureza de
sua alma sobre o corpo que abandonaram.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 38
“Resignados pela fé em uma vida melhor, e pela convicção da imortalidade da
alma, inúmeros discípulos tinham vindo lançar um derradeiro olhar àqueles lábios
descorados que, ainda na véspera, lhes falavam a linguagem da Terra. Mas eles
recebiam já a consolação de além-túmulo: o Espírito de Allan Kardec veio dizer-lhes
quais haviam sido as suas comoções, quais as suas primeiras impressões, quais, dos
que o haviam precedido no além-túmulo, tinham vindo ajudar-lhe a alma a
desprender-se da matéria. Se “o estilo é o homem”, aqueles que conheceram Allan
Kardec em vida não podem deixar de ficar emocionados pela autenticidade dessa
comunicação espírita.
“A morte de Allan Kardec é notável por uma coincidência estranha. A
Sociedade fundada por esse grande vulgarizador do Espiritismo acabava de
desaparecer. Abandonado o local, retirados os móveis, nada mais restava de um
passado que devia renascer sobre novas bases. No fim da última sessão, o presidente
fizera as suas despedidas; preenchida a sua missão, retirava-se da luta cotidiana, para
se consagrar inteiramente ao estudo da filosofia espiritualista. Outros, mais jovens -
intrépidos - deveriam continuar a obra e, fortes por sua virilidade, impor a verdade
por sua convicção.
“Para que referir os detalhes da morte? Que importa o modo por que se partiu
o instrumento, e por que consagrar uma linha a esses fragmentos de ora em diante
mergulhados no turbilhão imenso das moléculas? Allan Kardec morreu na sua hora
própria. Com ele terminou o prólogo de uma religião vivaz, que, irradiando todos os
dias, cedo terá iluminado toda a Humanidade. Ninguém melhor que ele podia
conduzir a bom termo essa obra de propaganda, à qual era necessário sacrificar as
longas vigílias que alimentam o espírito, a paciência que educa com o correr do
tempo, a abnegação que afronta a estultícia do presente, para não ver senão a
irradiação do futuro.
“Allan Kardec terá, com suas obras, fundado o dogma pressentido pelas mais
antigas sociedades. Seu nome, apreciado como o de um homem de bem, está há
muito tempo vulgarizado pelos que crêem e pelos que receiam. É difícil praticar o
bem sem chocar os interesses estabelecidos. O Espiritismo destrói muitos abusos,
reanima muitas consciências doloridas, dando-lhes a certeza da prova e a consolação
do futuro.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 39
“Os espíritas choram hoje o amigo que os deixa, porque o nosso
entendimento, por assim dizer, material, não se pode submeter a essa idéia de
transição; pago, porém, o primeiro tributo a essa inferioridade do nosso organismo,
o pensador ergue a cabeça e através desse mundo invisível, que ele sente existir além
do túmulo, estende a mão ao amigo, que já não existe, convencido de que o seu
Espírito nos protege sempre.
“O presidente da Sociedade Espírita de Paris está morto; mas o número de
adeptos cresce todos os dias, e os corajosos, os quais pelo respeito ao Mestre se
deixavam ficar no segundo plano, não hesitarão em se evidenciarem, por bem da
grande causa.
“Esta morte, que o vulgo deixará passar indiferente, não deixa de ser, por
isso, um grande fato para a Humanidade. Não é mais o sepulcro de um homem, é a
pedra tumular enchendo esse imenso vácuo que o materialismo cavara aos nossos
pés e sobre o qual o Espiritismo esparge as flores da esperança.”
Um ponto sobre o qual não atraí a vossa atenção, mas que devo assinalar, é a
caridade verdadeiramente cristã de Allan Kardec; dele se pode dizer que a mão
esquerda ignorou sempre o bem que fazia a direita, e que esta ainda menos conheceu
os botes que à outra atiravam aqueles para quem o reconhecimento é um fardo
excessivamente pesado. Cartas anônimas, insultos, traições, difamações sistemáticas,
nada foi poupado a esse intrépido lutador, a essa alma grande e varonil que penetrou
integralmente na imortalidade.
BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 40
O despojo mortal de Allan Kardec repousa no Père Lachaise, em Paris, sob
modesta lápide erigida pela piedade dos seus discípulos; é aí que se reúnem todos os
anos, desde 186911, os adeptos que têm guardado fidelidade à memória do Mestre e
conservam preciosamente no coração o culto da saudade.
E já que um sentimento análogo nos reúne hoje, repitamos bem alto, minhas
senhoras, meus senhores:
Honra! Honra e glória a Allan Kardec!12
Henri Sausse.
11 Ver “Reformador” de abril de 1957, pág. 93.
12 Recomendamos, aos que o desejarem, a leitura da obra “ALLAN KARDEC” (Meticulosa Pesquisa
Biobibliográfica e Ensaios de Interpretação), de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, em três volumes, na
qual se encontram valiosos subsídios para o conhecimento da vida e obra do Mestre Allan Kardec. - Nota da
FEB.

Profecia de São Malaquias: sucessor de Bento XVI já tem nome e será o último



No século XII, bispo irlandês teve visões sobre 112 papas; vencedor do conclave se chamará Pedro (no próprio nome ou no nome que adotar) e será o último da história da Igreja
11/03/2013


O conclave que terá início nesta terça-feira (12) após a renúncia de Bento XVI já tem resultado: o novo papa se chamará Pedro II e será o último pontífice da Igreja Católica. Pelo menos, é o que reza a profecia de São Malaquias, padre irlandês que viveu no século XII e deixou, além de alguns milagres no currículo, previsões sobre os 112 papados que viriam depois dele.
Nos idos do ano de 1140, o arcebispo de Armagh teve algumas visões sobre o futuro do catolicismo. Dentre elas, a que ficou mais famosa diz respeito ao sumo pontificado. A lista elaborada pelo religioso — canonizado mais tarde como São Malaquias — contém “lemas” descritivos que fazem referência ao nome, símbolo do país de origem, ao escudo de armas ou a qualquer elemento que possa caracterizar o papa de alguma forma.
No rol com os 112 pontífices antevistos na profecia, o último deles será o vencedor do próximo conclave a ser realizado na Santa Sé. De acordo com as visões de Malaquias, o sucessor de Bento XVI adotará o título de Pedro II, nome do primeiro bispo de Roma e sucessor de Jesus Cristo. A profecia diz o seguinte:
“Na perseguição final à sagrada Igreja Romana reinará Pedro Romano, que alimentará o seu rebanho entre muitas turbulências, sendo que então, a cidade das sete colinas [Roma] será destruída e o formidável juiz julgará o seu povo”.
Oficialmente, a Igreja nunca deu muita importância à profecia de São Malaquias. Por via das dúvidas, veja como as visões do profeta caracterizaram os cinco últimos pontífices:
  • "Pastor et Nauta" para o papa de número 107: João XXIII (1958-1963) - o termo Nauta (timoneiro) também refere-se à Veneza, cidade alagada, onde ele nasceu.
  • "Flos Florum" para o papa de número 108: Paulo VI (1963-1978) - sua tradução é: “Flor das Flores”. Eleito papa em 1963, seu escudo de armas continha três flores-de-lis.
  • “De Medietate Lunae” para o papa de número 109: João Paulo I (1978) – sua tradução é “Da Metade da Lua. Albino Luciani, nome de batismo do papa João Paulo I, significa “luz branca”. Seu papado durou apenas 33 dias, ou seja, reinou pelo período de um mês lunar. Sua diocese de origem, Belluno, quer dizer em latim “bela lua”. João Paulo I também morreu um mês após se tornar papa . Há suspeitas de que foi assassinado ao tentar “sanear” o Banco do Vaticano (ou IOR) e anular a influência da máfia italiana. Malaquias inclui uma frase sobre esse papa: Salve amore, pater nostro, mediatore sactissimo, presunta victima (Salve, amado pai, santo mediador, futura vítima).
  • "De Labore Solis Optimo" para o papa de número 110: João Paulo II (1978-2005) - Durante a 2ª Guerra Mundial, o futuro papa Karol Wojtila trabalhou como mineiro e operário em uma fábrica de produtos químicos na Polônia. Wojtila nasceu, em 1920, em um dia de eclipse do sol e morreu, em 2005, também em um dia de eclipse solar. João Paulo II foi incansável trabalhador, tendo sido o papa que mais viajou ao redor do mundo.
  • "Gloria Olivae" para o papa de número 111: Bento XVI (2005-2013) - Benedito (como é falado fora do Brasil), Jospeh Ratzinger nasceu em um sábado de Glória, o último sábado antes da Semana Santa, que se inicia no dia seguinte, com o Domingo de Ramos (de oliva). Escolheu seu nome homenageando São Bento, pertencente à ordem dos “olivetanos”; também chamada de ordem dos Beneditinos.
Nota da redação:
Francisco
A profecia de Malaquias continua valendo para os que acreditam nela. Apesar de o nome do novo papa não ser Pedro e de ele também não ter escolhido para si o nome "Pedro II", estudiosos lembram que o nome de São Francisco de Assis (de quem Bergoglio decidiu retirar o nome Francisco) é Giovanni di Pietro di Bernardone.
Ao mesmo tempo, recordam que São Francisco também era romano, já que nasceu na Itália, em 1182, na época em que parte desse território fazia parte do Sacro Império Romano-Germânico, que teve como primeiro imperador Carlos Magno, coroado em 25 de dezembro de 800 e  último, curiosamente, um Francisco II, que abdicou e dissolveu o império em 1806 durante as Guerras Napoleônicas. Há a curiosidade também de que São Francisco, ao iniciar sua nova vida, trabalhou como pedreiro, ajudando a reconstruir diversas igrejas nos arredores de Assis.
Além disso, os que acreditam nas profecias relebram que o líder dos jesuítas (ordem a qual Bergoglio pertence) é justamente chamado de o "Papa negro", devido à sua batina negra - em mais uma referência ao último papa que deveria surgir antes do Apocalipse.
Há ainda o fato de como o próprio novo papa Francisco se referiu à Argentina, seu país de origem, em sua primeira aparição: "Foram quase até o fim do mundo para me buscar". A favor disso, pesa uma profecia feita, em 1527, pelo Monge de Pádua - o mesmo que anos mais tarde publicaria as profecias de São Malaquias -, que diz que o último papa chegaria "a Roma de uma terra distante para encontrar tribulação e morte". 
Em tempo, na história da Igreja Católica nunca houve um papa jesuíta. Chamado Francisco, este também será o primeiro.

Povo cigano-história

A história do povo cigano ou rom é ainda hoje objeto de controvérsia. Existem várias razões que explicam a obscuridade que envolve a esse assunto. Em primeiro lugar, a cultura cigana é fundamentalmente ágrafa e despreocupada por sua história, de maneira que não foram conservados por escrito sua procedência. Sua história foi estudada sempre pelos não ciganos, com frequência através de um cariz fortemente etnocentrista. Os primeiros movimentos migratórios datam do século X, de sorte que muita informação se perdeu, se é que alguma vez existiu. É importante assinalar também que os primeiros grupos de ciganos chegados a Europa ocidental fantasiavam acerca de suas origens, atribuindo-se uma procedência misteriosa e lendária, em parte como estratégia de proteção frente a uma população em que eram minoria, em parte como posta em cena de seus espetáculos e atividades.
Outro problema que se deve ter em conta é que a inserção (ou não) na comunidade cigana é uma questão disputada. Não existe uma delimitação clara dentro da própria comunidade (nem fora) acerca de quem é cigano e quem não o é.
As principais fontes de informação são os testemunhos escritos, as análises lingüísticas e a genética populacional.
 O termo em português "cigano" (assim como o espanhol gitano e em inglês gypsy) é uma corruptela de egípcio, aplicado a esse povo pela crença errônea de que seriam provenientes do Egito. No século XVIII, o estudo da língua romani, própria dos ciganos, confirmou que se tratava de uma língua indo-ariana, muito similar ao panjabi o ao hindi ocidental. Isso demonstrou que a origem do povo rom está no noroeste do Subcontinente Indiano, na zona em que atualmente fica a fronteira entre os estados modernos de Índia e Paquistão. Esse descobrimento lingüístico acabou sendo também respaldado por estudos genéticos. É provável que os ciganos originaram-se de uma casta inferior do noroeste da Índia, que, por causas desconhecidas foi obrigada a abandonar o país no primeiro milênio d.C..
A procedência dos roma foi objeto de todo tipo de fantasias. Foram considerados descendentes de Caim, ou relacionados com a estirpe de Cam. Algumas tradições os identificam com magos caldeus da Síria, ou com uma tribo de Israel fugida do Egito faraônico. Uma antiga lenda balcânica os faz forjadores (ou ladrões) dos pregos da cruz de Cristo, motivo pelo qual teriam sido condenados a errar pelo mundo, se bem que não há qualquer evidência que situe aos ciganos no Oriente Médio nessa época.
Os estudos genéticos e lingüísticos parecem confirmar que os roma são originários do subcontinente Indiano, possivelmente da região do Punjab. A causa da sua diáspora continua sendo um mistério. Algumas teorias sugerem que foram originalmente indivíduos pertencentes a uma casta inferior recrutados e enviados a lutar ao oeste contra a invasão muçulmana. Ou talvez os próprios muçulmanos conquistaram os roma, escravizando-os e trazendo-os para o oeste, onde formaram uma comunidade separada.
Esta última hipótese baseia-se no relato de Mahmud de Ghazni, que informa sobre 50 mil prisioneiros durante a invasão turco-persa do Sindh e do Punjab. Por que os roma escolheram viajar para o oeste em vez de regressar para a sua terra é outro mistério, se bem que a explicação pode ser o serviço militar sob o domínio muçulmano.
O que é aceito pela maioria dos investigadores é que os ciganos poderiam abandonar a Índia em torno do ano 1000, e atravessar o que agora é o Afeganistão, Irã, Armênia e Turquia. Vários povos similares aos ciganos vivem hoje em dia na Índia, aparentemente originários do estado desértico de Rajastão, e à sua vez, povoações ciganas reconhecidas como tais pelos próprios roma vivem, todavia, no Irã, com o nome de lúrios.
Partiram em direção à Pérsia onde se dividiram em dois ramos: o primeiro, que tomou rumo oeste, atingiu a Europa através da Grécia; o segundo partiu para o sul, chegando à Síria, Egito e Palestina. No século XII, os ciganos enfrentaram o avanço dos muçulmanos, que tentaram impor sua religião na Índia[carece de fontes?], e lutaram contra os Sarracenos por muitos séculos, inclusive durante a Idade Média.
Apesar de que as provas documentais começam a ser fiáveis só a partir do século XIV, alguns autores contemporâneos rebaixaram a data do ano 1000 e inclusive antes. Certas referências sugerem que as primeiras referências escritas da existência do povo rom são anteriores: um texto que relata como Santa Atanásia de Egina repartiu comida em Trácia a uns "estrangeiros chamados atsinagi" (do grego Ατσίνγανος') durante a escassez do século IX, em plena época bizantina.
Inclusive antes, nos primórdios do mesmo século, no ano 803, Teófanes o Confessor escreve que o imperador Nicéforo I usa mão de obra de certos atsigani, que com a sua magia, ajudariam-no a conter uma revolta popular.
"Atsinganoi" foi um termo usado também para referir-se a adivinhadores ambulantes e ventríloquos e feiticeiros que visitaram ao imperador Constantino em 1054. Um texto hagiográfico ("Vida de São Jorge anacoreta") refere como os "atsigani" foram chamados por Constantino para ajudá-lo a limpar as fragas de feras. Mais tarde, seriam descritos como feiticeiros e malfeitores e acusados de intentar envenenar o galgotzigane, Zigeuner, zingari e zíngaros. favorito do imperador. A extensão desse termo geraria os modernos substantivos
Um relato histórico-lendário do século X titulado Crônica Persa, de Hazma de Ispaham, menciona a certos músicos solicitados ao rei da Índia, aos que chamou zott. O Livro dos Reis (ou Shahnameh, datado de 1010), do poeta Ferdusi conta uma história similar: vários milhares de Zott, Rom ou Dom ("homens") partiriam do atual Sindh (pode ser do rio Indo) com objetivo de entreter o rei da Pérsia com os seus espetáculos.
A partir daí, depois de uma longa estância nessa região, e já descritos como um povo que rejeitava viver da agricultura, espalhar-se-iam em dois grupos migratórios: o primeiro, que tomou rumo oeste, atingiu a EuropaGrécia; o segundo partiu para o sul, chegando à Síria, Egito e Palestina. através da
Desde a sua chegada a terras européias, uma das faces da comunidade cigana que mais chamou a atenção dos demais povos era a sua estranha língua, muito diferente das faladas na Europa. A primeira reprodução escrita do romani remonta a uma enciclopédia de título: First Book of the Introduction of Knowledge.Primeiro livro de introdução ao saber) escrito por Andrew Boorde. Esta obra, completada em 1542 e publicada em 1547, recolhia exemplos de frases do que o autor chamava Egipt speche (Fala egípcia), dando por válida a crença popular de que os ciganos procediam do Egito.[1] (
Durante os dois séculos seguintes aparecem mais menções escritas da língua romani. Na Espanha, o marquês de Sentmenat publicou em 1750 um pequeno vocabulário do romani falado na Península Ibérica.[2]
Um dos primeiros ou o primeiro documento em que se propõe identificar a língua romani como uma língua indiana é um trabalho de Szekely de Doba na Gazeta de Viena em 1763. Neste artigo, comentou que o predicador Vali, que na universidade de Leiden estudou o idioma de uns estudantes de Malabar do distrito de Zigânia, nome que lhe recordou o dos zíngaros e que posteriormente expôs o vocabulário a ciganos de Almasch (Komora, Eslováquia), comprovando que estes entendiam as palavras.[3]
Em nível acadêmico, o descobrimento da origem indiana do romani corresponde ao alemão Johann Rüdiger, catedrático da Universidade de Halle-Wittenberg, que em 1782 publicou um artigo de investigação lingüística,[4] no que analisava a fala de uma mulher cigana, Barbara Makelin, e a comparava com a língua recolhida numa gramática alemã do hindustani (o nome pelo que se conhecia antigamente os atuais hindi e urdu). No seu artigo, Rüdiger reconhecia a influência nas suas investigações do dicionário de romani de Hartwig Bacmeister, de 1755, a quem já em 1777 comunicara as suas idéias, assim como a sua dívida com seu professor Christian Büttner, que anos antes aventurara a possibilidade duma origem indiana ou acaso afegã dos ciganos. Entretanto, foi Rüdiger que estabeleceu, mediante a sua comparação entre a descrição gramatical do hindustani e a fala de Barbara Makelin, que as similitudes entre ambas variedades lingüísticas evidenciavam uma origem comum.
Estudos subsequentes da língua romani mostraram um estreito parentesco com o punjabi e o hindi ocidental, tanto no seu vocabulário fundamental como nas suas estruturas gramaticais e nas mudanças fonéticas. As investigações de Alexandre Paspati (Études sur les Tchinghianés, publicado em Constantinopla em 1870), de John Sampson (The dialect of the gypsies of Wales, 1926) e dos suecos Gjerdman e Ljungberg (A língua do cigano sueco trabalhador do cobre Dimitri Taikon, publicado em 1963)[1] evidenciam que existe uma unidade dentro do romani que se estende por toda Europa. Os estudos citados recolhiam mostras do romani grego, galês e sueco, respectivamente. Fica demostrado assim que o vocabulário básico coincide de modo relevante (nota: não se transcreve a grafia original):
  • Português: grande. Sânscrito: vadra; hindi: bara; greco-romani: bara; romani galês: baro; romani kalderash (sueco): baró.
  • Português: cabelo. Sânscrito: vála; hindi: bal; greco-romani: bal; romani galés: bal; romani kalderash (sueco): bal.
Determinadas características gramaticais indianas mantém-se no romani contemporâneo (e algumas inclusive no caló espanhol atual):
  • o final em -e para o masculino e em -i para o feminino.
  • a formação de abstratos por junção de -ben ou -pen: taco (certo) converte-se em taciben (verdade).
  • substituição do genitivo por um final adjetivado: dadésko gras (o cavalo do pai onde dad é pai e gras cavalo).
De acordo com os estudos de Terrence Kaufman (1973), a origem da língua romani, baseado nos dialetos europeus, pode localizar-se na Índia central e posteriormente, podem documentar-se empréstimos lingüísticos que foi adquirindo nos territórios por onde migrava, que iriam desde o século II a.C. ao XIVPérsia, mas não da língua árabe, o que demostra que a sua passagem pela Pérsia foi anterior à sua islamização, no ano 900. Dos séculos XI - XII, tem empréstimos de línguas do Cáucaso (osseto, georgiano e armênio). Logo, detecta-se a migração em direção à atual Turquia, onde recebe empréstimos do grego, mas não do turco, o que indica que a sua passagem foi anterior à invasão turca. No ano 1300, procederia a entrada nos Balcãs, onde adquiriu palavras das línguas eslavas. Posteriormente, os dialetos europeus do romani dividem-se, ainda que Kaufmann indica uma distinção entre os que tem influência léxica do romani e os que não, que seriam os ciganos da Bulgária e os da Espanha. d.C: assim tem empréstimos do persa da sua passagem pela
Os estudos genéticos corroboram a evidência lingüística que situa a origem do povo cigano no subcontinente indiano.
Estudos genéticos realizados em ciganos búlgaros, bálticos e valacos sugerem que cerca do 50% dos cromossomos Y e do ADN mitocondrial pertencem ao haplogrupo homem H e ao haplogrupo mulher M, amplamente estendidos na Ásia meridional e Ásia Central.
Os homens correspondem maioritariamente com os haplogrupos H (50%), I (22%), J2 (14%) e Rlb (7%) ; as mulheres com H (35%), M (26%), U3 (10%), X (7%), e outros (20%). Tais haplogrupos são raros nos não ciganos, e o resto encontram espalhados por toda Europa. Os haplogrupos femininos U2i e U7 praticamente não existem nas mulheres ciganas, mas estão presentes na Ásia meridional (entre 11 e 35%).
Pode-se calcular que aproximadamente a metade do patrimônio genético cigano é parecido ao dos grupos europeus circundantes. Mas os homens ciganos do grupo sinti da Europa Central são H (20%), J2 (20%) com uma frequência elevada de R2 (50%), frequência que se encontra também na Índia, concretamente na Bengala Ocidental e entre os cingaleses do Sri Lanka. O marcador M217, presente em 1,6% dos homens ciganos, encontra-se também em Bengala Ocidental (Kivisild et alter, 2003). Os haplogrupos L, que se encontram nos 10% dos indianos e paquistaneses, não são registrados entre os ciganos (a equipe de Greshman não parece ter investigado o haplogrupo L), assim como tampouco nos originários de Bengala Ocidental. A partir da base de dados YHRD (Y Chromosome Haplotype Reference Database),[5][6] pode-se comprovar que algumas populações ciganas européias possuem uma grande porcentagem de haplogrupos masculinos R1A1. Os dados de YHRD informam poucas correspondências, em geral, com a população do subcontinente, mas uma alta correlação no haplogrupo H com a comunidade de origem sul-asiática de Londres, na que há uma porcentagem muito alta de indivíduos procedentes de Bengala Ocidental e do Sri Lanka.
As investigações genéticas de Luba Kalaydjieva[7] mostram que o grupo original apareceu há umas 32 a 40 gerações, e que esse grupo era pequeno, de apenas uns 1.000 indivíduos.
Em 1322, um monge franciscano chamado Simon Simeonis descreve um povo com características similares aos "atsigani" vivendo em Creta, e em 1350 Ludolphus de Sudheim menciona um povo similar, com uma língua única, ao que chama "mandapolos", uma palavra que segundo se pensa deriva do grego "mantes"[8] Em 1360, um feudo cigano independente (chamado de Feudum Acinganorum) estabeleceu-se em Corfu e converteu-se numa «comunidade estável, e uma importante e consolidada parte da economia».[9] Dado que a região ocupada por essas comunidades rom era chamada "o pequeno Egito", os peregrinos que a atravessavam para ir à Terra Santa estenderam por toda Europa o apelido de "egipcianos", de onde procederiam os nomes de egiptanos, gitanos, gitans, egypsies e gypsies. Além dos assentamentos gregos, está documentada uma longa parada nos Balcãs, em terras de sérvios, búlgaros e romenos, no século XIV. (profeta ou adivinho).
Devido às frequentes guerras entre bizantinos e turcos, os roma iniciaram uma nova migração, a primeira que está documentada. As evidências lingüísticas permitem a reconstrução desta nova peregrinação. Partindo de que os ciganos abandonaram o Subcontinente Indiano, e dali passariam pelo Irã, supõe-se que mais tarde tomariam duas rotas. A primeira, desde a Armênia até Bizâncio (o que explicaria a presença de vocabulário greco-bizantino na língua dos ciganos). A outra rota, através da Síria e Oriente Médio e o Mediterrâneo (da que ficariam vestígios de vocabulário árabe). Em sua estadia nos Balcãs, a língua cigana absorveu o vocabulário germânico, mas a ausência desse resto lingüístico nos ciganos espanhóis faz pensar que a migração dividiu-se em dois, antes desse assentamento centro-europeu. Uma dirigiria-se ao oeste, ao interior de Europa, e outra ao sul, até a Síria. A primeira ponta estender-se-ia por todo o continente europeu, enquanto a segunda cruzaria a África do Norte para reaparecer na Europa depois de cruzar o estreito de Gibraltar no século XV, reencontrando-se ambas correntes migratórias em algum ponto do sul da Europa. Dessa maneira, a chegada dos ciganos à península Ibérica é também um assunto controverso, analisado mais adiante.
O certo é que a migração foi massiva e extraordinariamente rápida, e foi objeto de uma acolhida desigual. No século XV, foram encontrados em diversos locais, e os documentos multiplicam as testemunhas da sua presença por toda a Europa, que foi muito estudada.[10] Em 1416, sabe-se da presença de ciganos na Romênia, Boêmia (República Checa) e em Lindau (Alemanha). Em 1471, o rei de Boêmia Sigismundo II1418 e 1419, os ciganos já circulavam pela Suíça. Entraram na França em 1419, e em 12 de agosto um grupo chegou às portas de Sisteron e logo circulou pela Provença. concedeu-lhes um salvo-conduto, e entre
Em janeiro de 1420, estavam em Bruxelas, e em outubro em Flandres e o norte da França. Em 1421Bruges e depois foram a Arras. Em 18 de julho desse mesmo ano, um grupo chegou a Bolonha1415, e em 8 de maio de 1425 localizam-se em Saragoça a sua estadia. Em 1427, já se encontravam em Roma. chegaram a para solicitar ao Papa um salvo-conduto como peregrinos cristãos. Na Espanha, há informações da sua presença pela primeira vez em
Também em 1427, produziu-se uma das chegadas de ciganos melhor documentadas, conservada na obra "Temoignage d'un bourgeois de Paris". Em 12 de agosto desse ano[11], chegaram a Paris, onde causaram grande fascinação pelo seu aspecto miserável e estranho, e o povo acudiu em massa para vê-los adivinhar o futuro. Viviam da magia e dos pequenos roubos, até que o bispo expulsou-os em setembro desse mesmo ano e partiram em direção a Pontoise. Segundo Helena Sánchez Ortega[12] essa crônica resume o quadro de tipificação negativa dos ciganos que se manteve até os nossos dias.
O seu périplo europeu não se deteve, e em 1430, circulavam por toda França sob uma acolhida desigual: Arles, Brignoles, Metz, Troyes, Grenoble, Nevers, Romans, Colmar, Orleães e Le Luc. Em 1435, foram vistos em Santiago de Compostela, e em 1462 foram recebidos com honras em Jaén. A Suíça expulsou-os em 1471. Em 1493, estavam em Madri. Nessa última cidade no Concelho «…acordaram de dar esmolas aos do Egito porque o rogo da Vila passaram adiante, dez reais, para evitar os danos que poderiam fazer trezentas pessoas que viriam…».

A questão da entrada na península Ibérica

Como e quando chegaram os ciganos à península Ibérica é uma questão que está longe de se chegar a um consenso.
Uma primeira teoria diz que eles procedem do norte de África, desde onde cruzariam o estreito de GibraltarFrança com a rota migratória do norte.[13] Distinguiriam-se assim os ciganos do norte, que entraram por Perpignan, os do sul, ou tingitanos (na sua pronunciação deturpada, ciganos, é dizer, procedentes de Tingis, hoje Tânger), e os do leste (ou grecianos) que penetraram pela ribeira mediterrânea na década de 1480 provavelmente por causa da queda de Constantinopla. A entrada melhor documentada é a do norte. O primeiro documento conservado é de 1415. Nele, Afonso (logo o Magnânimo) concede salvo-conduto a um tal Tomás Sabba, peregrino a Santiago de Compostela. Esse mesmo monarca concede outra carta de passagem em 1425 a outro chefe cigano com a sua gente, ordenando que seja bem tratado: para reencontrar-se na
Cquote1.svg …Como nosso amado e devoto dom João do Egito Menor… entende que deve passar por algumas partes de nossos reinos e terras, e queremos que seja bem tratado e acolhido… sob pena de nossa ira e indignação… o mencionado dom João do Egito e os que com ele irão e o acompanharão, com todas suas cavalgaduras, roupas, bens, ouro, prata, alforjas e quaisquer outras coisas que levem consigo, sejam deixado ir, estar e passar por qualquer cidade, vila, lugar e outras partes de nosso senhorio a salvo e com segurança… e dando àqueles passagem segura e sendo conduzidos quando o mencionado dom João o requeira através do presente salvo-conduto nosso… Entregue em Saragoça com nosso selo em dia doze de janeiro do ano de nascimento de nosso Senhor 1425. Rey Alfonso[14] Cquote2.svg
—
Nesses anos sucederam-se os salvo-condutos, outorgados a supostos nobres ciganos peregrinos. O prosseguimento desses salvo-condutos por toda a geografia espanhola revela aos investigadores (como Teresa San Román, ou Helena Sánchez) algumas evidências:
  • O número de ciganos que entraram ou habitaram na península no século XV é calculado próximo a 30 mil pessoas.
  • Os ciganos viajavam em grupos variados, de 80 a 150 pessoas, lideradas por um homem.
  • Cada grupo autônomo mantinha relações à distância com algum dos outros, existindo talvez relações de parentesco entre eles (algo comum nos nossos dias entre os ciganos ibéricos).
  • A separação entre cada grupo era variada e em ocasiões uns seguiam aos outros a curta distância e pelas mesmas rotas.
  • A estratégia de sobrevivência mais comum era a de apresentar-se como peregrinos cristãos para buscar a proteção de um nobre.
  • A forma de vida era nômade, e se dedicavam à adivinhação e ao espetáculo.
O século XVI pode ser considerado como a idade de ouro dos ciganos na Europa. Vagavam de cidade em cidade, e se bem é certo que foram expulsos com frequência, haveria que esperar ao século XVI para que se desatasse uma onda de perseguição só comparável ao anti-judaísmo secular dos europeus. No século XV, os estereótipos negativos ainda não estavam enraizados, e entre a hostilidade e a fascinação, a cultura cigana dispersou-se pelo continente, misturando-se com as culturas e línguas locais. Lentamente, foi-se convertendo em um desafio para os poderes estabelecidos, para a população sedentária e para a religião dominante.
Quando teve lugar o descobrimento da América, em 1492, os ciganos já estavam espalhados por toda a Europa, onde apesar de uma boa acolhida inicial começaram a ser perseguidos, marginalizados, expulsos, severamente castigados, escravizados (como na Romênia, onde a escravidão cigana não foi abolida até 1864) ou simplesmente exterminados. O desencontro entre os ciganos e os não ciganos perduraria desde o século XVI até a atualidade.
Assim, na Espanha, a pragmática de Medina do Campo do ano 1499 obrigou-os a abandonar a vida nômade. Em 1500, o mesmo ano em que entraram na Polônia e Rússia, a Dieta de Augsburgo expulsou-os da Alemanha. Em 1505 Jaime IV da Escócia concedeu-lhes um salvo-conduto e saltaram à Dinamarca. Chegaram à Suécia em 1512, e em 1514 a Inglaterra, de onde seriam expulsos, sob pena de morte, em 1563. Antes disso, na Espanha foi-lhes dado a "escolher", em 1539, entre a sedentarização ou seis anos de galeras e, em 1540, os bispos da Bélgica ordenaram a sua expulsão sob pena de morte.[15]
A partir do final do século XVI, sucederam-se em toda a Europa autorizações, leis e decretos contra o modo de vida dos ciganos. A dinâmica dessas disposições será contraditória (são obrigados a sedentarizar-se ao tempo que se lhes impede a entrada em muitas cidades; são obrigados a assimilarem a cultura local ao tempo que se são concentrados em determinados bairros; são obrigados a trabalhar em ofícios reconhecidos ao tempo que são impedidos de entrar nos grêmios…). A tenacidade dos ciganos, as suas estratégias de ocultamento, de multi-ocupacionalidade (como a chama Teresa San Román), de semi-nomadismo ou itinerância circunscrita, de adaptação às circunstâncias instáveis da legislação, a capacidade para cruzar fronteiras ou para aliar-se em determinadas ocasiões com a população autóctone realizando trabalhos imprescindíveis, faz que os ciganos de toda Europa resistam à assimilação e conservem as suas próprias características culturais mais ou menos intactos até a atualidade.
Ante a ausência de testemunhas escritas próprias e a visão negativa dos outros, resultam valiosas as referências de uma personagem peculiar que se acercou do mundo cigano com interesse e curiosidade romântica na primeira metade do século XIX: George Borrow. Nas suas viagens por boa parte da Europa, como pregador protestante, teve oportunidade de contatar com grupos ciganos, aprendendo a sua língua e traduzindo e inclusive publicando o Evangelho em caló (entre a sua produção literária encontra-se La Bíblia en España, interessante livro de viagens estudado por Manuel Azaña).
A ida dos ciganos para a América correu paralelo à própria diáspora dos europeus. O incansável povo cigano empreendeu então uma nova migração. Sabe-se que Cristóvão Colombo, na sua terceira viagem, em 1498, introduziu os primeiros três ciganos que pisavam o Novo Mundo. É sabido também que a Inglaterra e a Escócia enviaram remessas de ciganos às suas colônias americanas da Virgínia, no século XVII[16] e Luisiana. A prática da deportação à América foi seguida nesse mesmo século por Portugal.[17] Segundo este autor, os ciganos espanhóis só podiam viajar à América com permissão expressa do rei. Filipe I decretou em 1570 uma proibição de entrada dos ciganos na América, e ordenou o regresso dos já enviados. É conhecido o caso de um ferreiro cigano (Jorge Leal) que conseguiu autorização para viajar a Cuba em 1602. Teria que esperar à autorização de 1783 para que os ciganos tivessem permissão de residência em qualquer parte do reino.
Entre final do século XVII e meados do XIX produziu-se outro movimento em direção ao oeste de uma numerosa população cigana, fugindo da escravidão ou aproveitando a sua abolição na Moldávia e Valáquia1860,[18] ou como consequência do recrudescimento da perseguição na Europa ocidental (especialmente na França e Alemanha). Os ciganos emigraram à América Latina num número que, como sempre, segue sendo um mistério. Segundo Koen Peeters, a independência da Sérvia em 1878 acelerou essa saída, e as causas que explicam o novo êxodo massivo podem ser várias: "Em primeiro lugar, à pressão de assimilação de costumes; em segundo lugar, às novas possibilidades nas suas atividades laborais; e, em terceiro lugar, a motivos comuns a outros emigrantes da Sérvia, como podem ser, por um lado, a idéia de que no Novo Mundo tinham muitas possibilidades de conseguir grandes fortunas, as leis que favoreceram a imigração ou também a aparição de novas possibilidades no que diz respeito a meios de transporte".[19] Também em torno de 1860, registra-se a saída de ciganos britânicos ("romnichels") e no início do século XX houve uma nova partida em massa de ciganos valáquios. em
A onda migratória diminuiu com o começo da Primeira Guerra Mundial, e não voltou a reiniciar até 1989, ano em que começou a terceira grande diáspora, ainda em curso.
A detenção do fluxo migratório no início do século XX não significou uma melhora das condições de vida dos ciganos. As disposições legais continuaram sendo inúteis (como já o foram antes) na hora de assimilá-los. Na França, por exemplo, uma "lei sobre o exercício das profissões ambulantes e sobre a circulação de nômades" obrigava em 1912 a serem providos de um "carnê antropométrico de identidade" que deveria ser selado em cada final de prazo.
Ciganos no campo de concentração de Belzec, em 1940.
A medida que se aproxima a Segunda Guerra Mundial, a perseguição fica mais dura. O governo prussiano, por exemplo, decidiu acabar com a "moléstia cigana"[20] mediante um acordo internacional desenhado para acabar com a sua forma de vida. Na Baviera, foi elaborado em 1905 um "Livro cigano", com um censo inicial de 3 mil indivíduos que logo aumentaria com a colaboração de outros estados germânicos. O estado da Baviera autorizou o castigo a trabalhos forçados a todo cigano que não pudesse demonstrar ter um trabalho estável, e a República de Weimar estendeu essa medida para toda a Alemanha.
Os censos de ciganos multiplicaram-se em toda a Europa (França, Inglaterra) e na Suíça, em 1926, começou o costume de sequestrar meninos ciganos para serem educados entre não ciganos, prática que só seria abandonada em 1973.
O auge do nazismo e os excessos da Segunda Guerra Mundial fartaram-se com a crueldade com os ciganos. Tomando como base os censos anteriores, o Centro de Investigação para Higiene Racial e Biologia Populacional do Reich começou a analisar a questão cigana. Depois de uns momentos de dúvida, nos que se esteve perto de classificar aos ciganos dentro da raça ariana, Himmler ordenou a sua internação, e finalmente a sua execução em massa. Em língua cigana, chama-se a esse processo de extermínio "o porraimos", ou "porajmos", a destruição. Como sempre, é desconhecido o número exato de vítimas. As estimativas vão desde 50 mil a 80 mil (Denis Peschanski, La France des camps, l'internement 1938-46, Gallimard, 2002, p. 379) até 500 mil a 1 milhão e meio.
Cquote1.svg Só em Auschwitz-Birkenau morreram mais de vinte mil ciganos. E num só dia, em 3 de agosto de 1944, os últimos 2.897 habitantes das barracas ciganas de Auschwitz, incluindo mulheres e crianças, deixaram para sempre de cantar e dar-se ao entusiasmo.[20] Cquote2.svg
—
O genocídio cigano é um fenômeno relativamente desconhecido, no que colaboraram com mais ou menos interesse (igual ao ocorrido no genocídio judeu) às populações autóctones.
Na Europa central e do leste, sob regimes comunistas, os ciganos sofreram políticas de assimilação e restrições da liberdade cultural. Na Bulgária, proibiu-se o uso da língua romani e a representação de música rom em atos públicos. Na antiga Checoslováquia, dezenas de milhares de ciganos da Eslováquia, Hungria e Romênia foram reassentados em regiões fronteiriças da Morávia, e foi proibido o estilo de vida nômade. Na Checoslováquia, onde foram classificados como "estrato social degradado", mulheres ciganas foram submetidas a esterilizações como parte da política do Estado para reduzir o seu crescimento demográfico. Essa política foi posta em prática mediante incentivos financeiros, ameaças de retirada de subsídios sociais, desinformação e esterilização involuntária.[21]
No início da década de 1990, a Alemanha deportou dezenas de milhares de imigrantes à Europa Central e Oriental. Cerca de 60% de uma população de 100 mil cidadãos romenos foram deportados, de acordo com um tratado de 1992, eram ciganos.
No terceiro quarto do século XX começou também um importante movimento associativo cigano, em especial, a partir do Primeiro Congresso Cigano de Londres, de 1971.
Com a queda do muro de Berlim em 1989, o desmantelamento dos estados autoritários da Europa Centralleste e a crise econômica e, especialmente, por causa da guerra da Iugoslávia, começa a terceira grande diáspora cigana. Esse movimento migratório (que novamente passa despercebido para a opinião pública), realiza-se, como é habitual, do leste para o oeste. As estimativas são de 200 a 280 mil ciganos desprezados do leste ao oeste europeu desde 1960 a 1997. e do
Com a deterioração política da antiga Iugoslávia, 40 mil ciganos chegaram à Itália e outros 30 mil à Áustria.. A crise econômica gerou, também, uma intensa rota migratória desde a Romênia aos países da Europa próspera numa quantidade ainda por calcular. As leis de cidadania discriminatórias na República Checa,por exemplo, são um expoente de velhas e novas formas de discriminação.
Segundo informações do Banco Mundial na Europa há uma população entre 7 e 9 milhões de ciganos, dos que ao redor de 568mil (2002) vivem na Romênia, ainda que percentualmente a presença maior do povo cigano é a da República da Macedônia, onde representa 11% da população. A maior parte da população cigana da Europa central na zona balcânica vive com menos de 3 euros por dia per capita e 89% dos ciganos búlgaros não podem cursar estudos primários.
No Brasil, estima-se que existam entre 678 mil (estimativas do governo) e 1 milhão de ciganos.Já em Portugal, são estimados em cerca de 40 mil indivíduos.

DIFERENÇAS ENTRE CANDOMBLÉ E UMBANDA



O brasileiro é um povo pacífico e crédulo, tem muita fé, é um povo religioso, não é difícil enganar pessoas tão ingênuas...(Este é meu ponto de vista).

A visão que tenho é bem clara...:

Existe uma barafunda geral, na cabeça das pessoas com relação a religião, cada um faz a sua como bem quer ou como bem entende que deva fazer (a tal da verdade absoluta) o que o guia do babá ou da babá de terreiro disser, é que é o certo e pronto. (???)

Se em cada esquina tiver um centro de umbanda, e formos perguntar como funciona, vamos verificar que cada um funciona de acordo com a cabeça do dono da casa, e não de acordo com o que dita as regras gerais do que deva ser um centro de umbanda.

A primeira diferença entre candomblé e umbanda:

O candomblé é uma religião iniciática, que apesar de bem deturpada, tem seus fundamentos nas religiões tribais africanas (milenares) trazidas pelos escravos para o Brasil. E com eles vieram os orixás africanos, todos negros, sem mistura de credo, pois não conheciam as religiões católica e espírita nem de longe (os escravos).

A umbanda foi criada por volta de 1900, não se sabe exatamente a data, no Rio de Janeiro, onde o primeiro babá de terreiro criou as regras, ou foram ditas por seus guias, assim foi criada a umbanda, que hoje, já não se sabe mais o que é realidade ou fruto de imaginação.

A mistura é tão grande, e a imaginação de cada um vai tão longe, que foram criando falanges e mais falanges que não se entende mais nada, nem os próprios umbandistas sabem dar certas explicações. A umbanda começou com os caboclos (espíritos de índios brasileiros) e pretos velhos (espíritos dos escravos), depois foram aparecendo novas entidades como ciganos, indianos, já tem gente incorporando Cleópatra, Messalina, Afrodite, Lampião, etc... dá prá acreditar? :-)

E os que dizem incorporar Lúcifer, Belzebu e outros, não que eu queira ser a dona da verdade, que não sou mesmo... mas haja imaginação hein? :-)

Freqüentei umbanda durante 9 anos, respeito a umbanda séria e acredito nos guias de umbanda, (pois os que conheci mereciam respeito), mas aprendi a separar mistificação, de entidades de verdade, pois acredito que o maior problema da umbanda seja esse, as pessoas não saberem distinguir um do outro.

Na minha opinião, toda religião é boa, desde que não seja usada para ludibriar as pessoas ingênuas e crédulas. Toda pessoa precisa acreditar em alguma coisa, ter fé, mas também precisa ter o bom senso de desconfiar de vez em quando, nem tudo o que vemos e ouvimos é o que parece ser.

Independente das religiões, o ser humano é dotado, uns mais outros menos, de poderes paranormais ou seja vidência, audiência, telepatia, telecinese e outros, até poder de cura através das mãos, (que a pessoa já nasce com eles sem fazer parte de nenhuma religião, muitos morreram nas fogueiras por terem tais poderes, eram chamados de bruxos, na idade média), que infelizmente são usados através de religiões, com finalidades nem sempre honestas.

Segunda diferença entre candomblé e umbanda:

Antigamente na religião africana, existia uma separação entre o culto de Egun e o culto de orixá, era bem definido e os locais de culto eram independentes e separados. Exemplo disso, podemos ver nas casas de candomblé da Bahia (casas de Ketu tradicional), onde se cultua orixá, (tem apenas um quarto onde são homenageados os eguns dos filhos da casa que já morreram), os Eguns dos pais de santo, são cultuados em outras casas, as mais conhecidas estão na Ilha de Itaparica.

Também acho uma discriminação, mulher quando morre não é egun, é alma, sendo cultuadas em outras casas.
Nessas casas onde são cultuados os babá Egun, também é feita uma separação bem definida, quando um babá Egun está dançando no barracão e vira um orixá de alguém que esteja assistindo, em respeito ao orixá, esse babá Egun se retira da sala e só volta quando o orixá tiver ido embora. No candomblé, o único motivo de se usar contra-egun, é para que um egun não incorpore em uma pessoa iniciada para o orixá.

A coisa tá tão complicada de se entender, que a maioria das babás de terreiro usam como símbolo de cargo um mocan no pescoço, isso quando não usam senzala de búzios e contra-egun também, feitos de palha da costa, usado no candomblé exatamente para que eguns não se apoderem das pessoas.

A conclusão que eu cheguei é a seguinte:

A umbanda não é iniciática, portanto não tem feitura de orixá.

As entidades que incorporam na umbanda não são orixás, são guias.

Nem tudo que vemos incorporado na umbanda são guias, pode ser fruto da imaginação muito fértil de algumas pessoas (com exceções).

No candomblé tem gente feita de santo que continua virando com guias de umbanda, isso não é novidade, é até muito freqüente de se ver. (vide texto anexo do Prof. Reginaldo Prandi).

Mas dizer que foi feito de um orixá na umbanda, prá mim é novidade... a não ser que o pai de santo tenha sido feito, mas aí a casa deixa de ser umbanda e passa a ser de candomblé e que também toca umbanda.

Peço desculpas, aos umbandistas, não quis com isso ofender ninguém, apenas tentei colocar como vejo a situação da umbanda e do candomblé nos dias de hoje, e peço que as pessoas leiam mais e procurem se orientar melhor, não estou querendo dizer com isso, que o candomblé seja a religião perfeita, porque não é mesmo, tem muitas falhas principalmente por deturpação de muitos pais e mães de santo.

Nos candomblés bantus tradicionalmente sempre existiu a presença do caboclo, mas é um caboclo diferente do que incorpora na umbanda, não dá prá confundir são totalmente diferentes.

Com isso quero dizer que existem umbandas sérias e candomblés sérios, mas que precisam ser distinguidos.
E esse é o X da questão.

Lendas e Mitos - A Medusa


o mito deste ser medonho tem várias versões, mas centra em si um significado primordial, ela representa a própria infelicidade, encarna a mulher frustrada, deprimida e abandonada, aquela que odeia quem a tornou num monstro terrível.
Conta uma das versões desta lenda da mitologia grega que Medusa era uma mulher muito bonita e que se orgulhava muito da sua aparência. Apaixonou-se entretanto por Poisedon, deus dos mares,  e resolveu “roubá-lo” a Atena. Esta deusa, com a raiva da disputa, transformou-a num monstro, com cabelos de serpente. Outra das histórias conta que terá sido o próprio Poisedon que raptou Medusa e a violou no templo de Atena, esta não perdoou a traição e vingou-se em Medusa dando-lhe o mesmo fim que na primeira versão da lenda. Na mitologia grega, Medusa era considerada uma das principais divindades, mas com a maldição tornou-se num dos seres mais temidos. Depois de ficar com uma aparência monstruosa, passou a transformar todos aqueles que a olhavam em pedra. Ela acabou por ser morta, enquanto esperava um filho de Poisedon, por Perseu, que foi trancado numa arca e atirado ao mar e salvo mais tarde por um pescador que o educou de uma forma exemplar. A ele lhe foi atribuída a missão de destruir Medusa. Conseguiu matá-la fazendo refletir a sua imagem num espelho, de forma a que os seus olhos não o fitassem. A sua cabeça foi cortada e do seu pescoço saíram dois seres, o gigante Crisaor e o cavalo Pégaso. De uma das veias saiu um veneno mortal e da outra o elixir da vida eterna. No fundo, esta deusa centrava em si o bem e o mal, mas durante a sua vida apenas usou os seus poderes maléficos. A cabeça de Medusa, depois de ser decapitada, foi entregue a Atena, que a colocou num escudo, como exemplo da punição às mulheres perversas e para afugentar os maus espíritos. A sua cabeça representou para sempre uma arma contra os inimigos.


Simbologia da Medusa
A Grécia Antiga é riquíssima em histórias e lendas de deuses, pois este povo tentava encontrar resposta para tudo e atribuía muitas culpas aos mitos dos deuses, de forma a que o presente e o futuro fizesse algum sentido. A sua imaginação fértil criou as mais fabulosas e fascinantes histórias da mitologia. Um dos casos é a figura da Medusa, que muitos profissionais da área de psicologia, filosofia ou antropologia hoje em dia consideram que representava todas as mulheres fortes daquela época, e que eram violentadas e ostracizadas precisamente pela sua grande personalidade.


A Medusa na atualidade
Esta personagem da Mitologia Grega foi usada ao longo dos tempos em variadíssimas matérias. Tem extrema importância nas comparações da psicanálise, no movimento feminista ou até mesmo para se compreender os valores sociais, políticos e religiosos da Antiga Grécia. É uma figura bastante controversa, porque enquanto alguns acreditaram que ela representava toda a encarnação do mal, outros sempre defenderam que a Medusa não passava de uma vítima, no meio de uma realidade (inventada) onde era incompreendida. 

Profecias sobre guerra; voce acredita?

Há várias profecias que falam de uma grande guerra mundial, grande mortandade etc. Mas são poucas as que dão alguma indicação de data ou época. No século XVIII, viveu nas florestas da Bavária (assim como o Aranha Negra), um pastor de vacas chamado Stormberger. Ele ficou conhecido na época por suas profecias. Vários estudiosos de profecias austríacos e da região da Bavária documentaram suas profecias, mas os livros escritos por eles foram condenados pelos nazistas e queimados, já que previam a derrota de Hitler. Mas sobreviveram fragmentos que esclarecem que ele previu a invenção de carros, trens e aviões. Ele disse com acerto o dia que a Primeira Guerra Mundial iria começar, sua duração, as armas. Predisse a Grande Depressão em 1929, o Terceiro Reich, a Segunda Guerra Mundial, a suástica, a derrota e a divisão da Alemanha etc. Ele disse também que haveria três guerras mundiais no século XX:  "Duas ou três décadas após a primeira guerra virá uma segunda guerra ainda maior. Quase todas as nações do mundo estarão envolvidas. Milhões de homens morrerão, sem ser soldados. O fogo cairá do céu e muitas grandes cidades serão destruídas. E depois da segunda grande guerra entre as nações virá uma terceira conflagração universal, que determinará todas as coisas. Haverá armas totalmente novas. Em um dia, mais homens morrerão do que em todas as guerras anteriores juntas. As batalhas serão realizadas com armas artificiais. Catástrofes gigantescas ocorrerão. Com os olhos abertos, as nações do planeta passarão por estas catástrofes. Eles não saberão do que está acontecendo, e aqueles que souberem e contarem, serão silenciados. Tudo ficará diferente de antes, e em muitos lugares a Terra será um grande cemitério. A terceira guerra será o fim de muitas nações." 
É bem possível que as armas artificiais citadas sejam gases de armas químicas. Não há tiros, não há barulho, não há incêndio... 
Maria Laach, alemã, fez várias profecias no século XVI, dentre elas:  "O século vinte trará morte e destruição, apostasia da Igreja, discórdia em famílias, cidades e governos; será o século de três grandes guerras com intervalos de algumas décadas. Elas se tornarão ainda mais devastadoras e sangrentas e deixarão em ruínas não apenas a Alemanha, mas todos os países do oriente e ocidente. (...) Após uma grande derrota da Alemanha, se seguirá a próxima grande guerra. Não haverá mais pão para as pessoas e alimento para animais. Nuvens venenosas, fabricadas por mãos humanas, abaixarão e exterminarão tudo. A mente humana estará tomada por insanidade." 
Mais uma vez, há a indicação do uso de armas químicas, que aparece também em várias outras profecias.
Um monge Beneditino, que viveu séc. XVII, teve várias visões. Dentre elas, há:
"Nos últimos anos do século XX, se verá desaparecer inúmeras espécies animais, mortas pelo homem. Mas no fim, será o homem que condenará o homem à morte, porque tudo que cresce sobre a terra conterá a essência da morte. O ar será o sopro da morte, e assim que o homem respirá-lo, ele respirará a morte". (armas químicas) 
"Logo que o milênio chegar no seu fim, choverá do céu uma pestilência tal como nunca antes na terra. E esta pestilência retirará toda a força do homem; e o homem não conseguirá mais lutar, mesmo contra o verme que se arrasta sobre a terra." (armas químicas)
As profecias sobre a Terceira Guerra Mundial indicam que a guerra deve começar em 1999 na Europa e será realizada por três países inimigos: Rússia, Iraque e um outro país (possivelmente Irã, Síria ou Arábia Saudita). Interpretando as profecias, entendi que a guerra não chegará à América do Sul.
Sibila de Praga (falecida em 1658)  "Do leste virá um dragão, terrível de se olhar, porque de seus novecentos, noventa e nove olhos, raios mortais serão emitidos, e ar venenoso (produzido por bombas químicas) sai de sua boca." 
Irmã Nativitas (falecida em 1798) 
Nosso Senhor teria aparecido a ela e dito: “A figura do mundo passa, e o tempo de minha última vinda se aproxima . Quando o sol está se pondo, se diz que o dia se vai e que a noite vem. (...) Minha filha, o trabalhador só trabalha após o sol nascer e antes do sol se pôr e mede a duração do dia. Não esqueça, não há mil anos para o mundo; não há mais do que alguns séculos, em pequeno número, de duração.”  
É uma interpretação totalmente pessoal, mas entendo um pequeno número de séculos (que é pequeno comparado ao milênio) como 2 ou 3 séculos.  
O suposto mago Merlin, personagem que teria vivido na época do lendário Rei Arthur, entre o século V e VII, deixou uma profecia que diz, dentre outras coisas:  "Antes que a era cristã atinja o século XX (ou antes do cristianismo ter 2000 anos), o oriente se inflamará entre o Eufrates e o Nilo e muita gente morrerá. Haverá um papa (João Paulo II) que não ousará ficar em Roma. Uma coisa que os romanos devem saber é que antes deste Papa morrer, Nosso Senhor o fará sofrer a vergonha de não poder se estabelecer em nenhuma parte. É necessário que os romanos saibam que este será o sinal de sua destruição, considerada como um castigo por seus pecados." 
No Liber Vaticinationem Quodam, escrito perto do ano 350, se lê sobre a guerra que começará no fim deste milênio e atravessará o início do próximo que: 
"o terceiro milênio é o momento da terceira grande guerra. A França é destruída; a terra treme...".